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era um bêbado que não se cabia no espaço

Era um bêbado que não se cabia no espaço. Tem aqueles que ficam amuados nos cantos, cabisbaixos, lamuriando aos pouquinhos. Ele não. Sua chegada era um bater de portas sapatos na escada sacolas e blusas farfalhando madeira reclamando na parede som alto canto CANTO! Deve ser porque, quando são, modificava cada palmo de terra pisada, cada pessoa com quem ele falava. Era um bater de coração assim abrupto cada vez que eu tocava a sua pele. Um vício, precisava daquilo para ser dia. Deve ser por isso que muitos passaram pela sua vida: ele era um explodir. Peça menos e ele será nada. Conheço a dúbia sensação de cada pessoa que o viu partir, como quem vê se afastar um geiser produzido por um vulcão prestes a entrar em erupção. Um último olhar de carinho mesclado com reprovação; quem sabe despeito — despeito por si mesmo travestido de despeito pelo outro. São era essa fonte a escaldar desavenças; bastava que me abraçasse para derreter minha couraça. Mas, assim como eu, ele não fazia nada do que eu pedia. Fazia depois, no seu tempo-humor, quando o jorrar das águas aquecia seu coração e brotava em sorriso. São era um introspecto extrovertido capaz de desabrochar desde a mais escrachada piada até a mais elaborada reflexão — muitas vezes uma atrás da outra. No entanto, nos dias mais apertados, ele necessitava se desabotoar. Bêbado, despia-se dos limites do espaço: tudo era seu corpo e o que estivesse no caminho que se danasse. Tocá-lo nessas horas era bom, mas sua montanha-russa de estímulos me fazia afastar: ele era a definição carnal de curva dramática. Ele era todos e era ninguém naquele emaranhado de narrativas épicas que saiam da sua boca enquanto se descabia. Desejos vomitados sem filtro, do amor ao escárnio, dançavam em forma de som pelas paredes do quarto até dormir. Deitado na cama, seu corpo se debatia deveras, como se fosse grande demais para se deixar caber em sonhos; fazia barulhos guturais, respirava estranho. De tão pesado, vez ou outra parecia que ia sumir, engolido pelas cobertas. Mas, as primeiras horas passadas, ele se reentenderia; por isso valia a pena esperar. No primeiro olhar trocado pela manhã, acordaria inocência e eu saberia que ele tinha voltado. Iluminaria-me de novo, numa cumplicidade miúda de quem se identifica; com o coração suspenso, desejaria niná-lo só para vê-lo acordar outra vez.

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era um bêbado que não se cabia no espaço mylle pampuch

uma e outra

Busco uma versão de mim, uma que conviva com a alma em que habito. Uma que não se desfaça a cada percalço ou desdito, uma que saiba se elevar por entre os espinhos, uma. Que fosse uma, pequenina, para me segurar nas desmedidas, uma. Singular e sulfurante, magnífica em suas rusgas, habilidosa em seus átrios, contida em seus arfares de peito, uma. Uma rugosa o bastante para me conduzir em suas narinas e me lançar no ar poluído sem casca de ferida, uma. Uma que não tenho, porque sou pálida quando o assunto é enfrentar o desconhecido.

Visto então outra, a versão-membrana feita do amor do mundo, vulnerável e visceral, a outra. Outra que carrega consigo a fome e a saciedade, a febre e a taquicardia, essa outra. Outra que demora a entregar o peito e, quando entrega, sabe que será dilacerada pelo acaso, outra. Uma outra que não cai nas artimanhas da memória, onde todo e qualquer passado é melhor do que agora, a outra. Outra que conclui-se no silêncio, que vê quando vai perder e tenta se proteger quando é tarde demais, tal qual outra. Essa outra é o agora.

Encontrar uma ao invés da outra é a magia dentro da magia, como o herói da jornada. Um mundo dentro de outro e outro ainda nas camadas de cebola que defloro sem choro contido. A sós sem siso, desencontro é mais um porto-seguro que se esvai — mesmo sem saber desde quando era porto e porque era seguro. Há aqui um peito que não sabe o não-amar.

Tudo porque a outra sabe que falar literatura é entregar um pedaço da intimidade.

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uma e outra mylle pampuch

elegia (ou melhor) ode ao erro

Quero errar, tanto e com tanto afinco que me arrebentem as ideias se eu errar menos do que deveria. Errar por horas a fio e errar cansada, me irritar por errar mais ainda. Quero não buscar o sentido estrito das palavras — como agora, que sei lá se o que estou escrevendo é uma elegia — para então me abrir na forma que vier. Ser livre para errar em forma e conteúdo, ser simples, nada esperar além do erro. Sim, que me apontem o dedo. Sim, que não entendam meus motivos — o erro é o reflexo do objetivo. Quero convidar você para errar comigo, para viver nesse cardume de incertezas. Como você, estou cansada de parecer certa, de querer ser perfeita. Como você, estou sufocando nesse mar de autoexigência. Então eu quero errar, e errar feio, para que todo mundo veja. Para que todos julguem e tirem suas conclusões rasas sobre como foi banal o meu erro. Quero errar cinco mil vezes como o inventor do aspirador sem saco coletor, como Thomas Edson buscando a lâmpada. Que eu não tenha preguiça. Que eu não tenha receio. Quero errar porque é no escuro que se tateia, porque a gente nunca sabe o que tem do outro lado, porque a subida é íngreme e a travessia estreita, porque estou apaixonada pela descoberta de que todas as vezes que errei era mesmo para eu estar errando. Está tudo errado — e é assim que tem que ser.

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elegia (ou melhor) ode ao erro mylle pampuch

Sucesso, fracasso e o meio do caminho

Sucesso, fracasso e o meio do caminho mylle pampuch

A carreira literária é desafiadora. Você pode olhar ao redor, buscar em todos os cantinhos, mas nunca encontrará um caminho igual ao do outro para seguir. Cada caminho é diferente e quem faz esse caminho é você. Você o constrói e o trilha ao mesmo tempo. Tal fato não se limita aos escritores; ocorre com todos os artistas.

No entanto, por ser escritora profissional, só posso falar sobre a minha experiência.

O peso já começa na admissão: escritora profissional. Clarice Lispector, em sua famosa entrevista, não se considerava uma escritora profissional. Eu faço questão de não ser profissional, para manter minha liberdade, diz ela com sua língua presa. De certa forma, sigo os passos dela, porque faço questão de manter minha liberdade com a escrita. Escrevo sobre o que amo, acredito e que possa mudar a vida das pessoas.

Tenho essa pretensão sim, de mudar a vida das pessoas.

Não preciso mudar tudo, causar uma revolução; basta capturar um pedaço de coração, um suspiro, uma lágrima, um levante momentâneo. Tudo o que tenho é a entrega do tempo de quem me lê. Às vezes me esqueço de que todo tempo em que sou lida por alguém é um tempo precioso.

Esqueço de que já estou na sobrevida, porque todo tempo em que sou lida por alguém é um tempo de novo e que me altera sem que eu o tenha vivido.

A única resposta, aquela grande, é que não há resposta. Há o nada, o tudo e as infinitas versões do caminho.

Dentre tantas versões, quis escrever — e poder querer já é uma boa notícia. Escrever, como tudo, tem suas consequências boas, ruins, medianas. Consequências que não controlo, que me encantam e me entristecem. E me fazem ter outros quereres, num moto perpétuo.

Até aí, toda vida é assim. A questão é, quem ensina a ser escritor? Não a arte, a técnica, mas o labor de cada dia? Quem ensina os altos e baixos financeiros, quem ensina a resiliência ante fracassos contínuos e a humildade ante um sucesso momentâneo? Quem ensina que lidar com a arte é lidar consigo mesmo, dar a cara a tapa e pôr a mão no fogo?

Ninguém. Uns aprendem na marra, outros no grito e outros fazem terapia. Contrariando estereótipos, escritores não precisam ser loucos desequilibrados nem bêbados isolados em suas torres de marfim. Escritores, como todos, precisam ter equilíbrio emocional e psicológico.

Fico sem reação quando alguém me fala você me inspira. Gosto da imagem, mas fico sem reação. Como posso inspirar alguém nesse estado?, me pergunto. Sorrio amarelo — se for em emoticon, melhor. Inspiro a que, exatamente?, mas tenho vergonha de perguntar — vergonha até de perguntar a mim mesma, porque talvez encontre uma resposta.

Aceito o mistério. Aceito que mesmo os dias mais sombrios podem ter lá o seu brilho. Posso não ver o tal brilho, mas há sempre alguém a vê-lo por mim. Um inesperado, a me puxar para a existência como um vapor.Teço mais questões do que respostas. Enlouqueço e volto atrás para enlouquecer de novo. Me repito e desconheço. Sei menos do que gostaria e recebo mais do que esperava. Mesmo que escrever seja sina e não jogo, a sorte sempre dá um jeito de preencher as lacunas.

qualquer ajuda é bem-vinda

Sete caixas de papelão de tamanhos diversos
enfiadas em três caixas de TV 
de cinquenta polegadas.

É véspera da véspera de natal.

A família sai, toda reunida.
A mãe, a irmã e os cinco filhos,
todos falando alto
em clima de festa.

O filho mais velho descoloriu o cabelo
e tingiu o topo da cabeça de verde.
Ele organiza as caixas, que insistem 
em cair do carrinho.

Ele vai ficando pra trás,
desgarrado da família.
Ele, com seu tênis Adidas descolando a sola
e os casacos de suas irmãs pequenas,
de sua mãe e sua tia.

Vai ficando mais pra trás 
quando o efeito alavanca empina o papelão e 
derruba o “qualquer ajuda é bem-vinda”
seguido de sua chave 
pix.

voltei pra falar

Morri, renasci.
Voltei pra falar do outro,
cansei de falar de mim.

Voltei pra falar das coisas
que tá todo mundo cansado de desouvir.

Nem solução, nem problema.
Voltei pra desgastar
a saliva,
o instinto,
os instrumentos 
que achamos indispensáveis para sobreviver.
As histórias erradas que continuamos nos repetindo
— mesmo sabendo que são erradas.

Voltei pra ouvir a natureza.

Enjaulados em nossas invenções
não paramos pra ouvir.

um homem vendendo pipoca doce no sinaleiro

Um homem vendendo pipoca doce no sinaleiro
coloca dois pacotinhos cor-de-rosa pendurados
no retrovisor de um carro preto.
A janela estava aberta. Entre os pacotes
há um bilhete.

O homem vendendo pipocas segue
repetindo-se em outros cinco carros
enquanto o homem dentro do carro, 
sentado, de óculos escuros e ar condicionado,
lê o bilhete.

Sentado, o homem mexe no porta-moedas do carro.
Sentada, a mulher ao seu lado diz qualquer coisa.
Sorrindo, conversam.

O homem vendendo pipocas corre
até o início da fila de carros.
De retrovisor em retrovisor, recolhe seus pacotinhos, dizendo:
“obrigado”.

O homem dentro do carro 
— como todos os outros —
acelerou. 
Sem ouvir o homem,
sem pensar nas pipocas,
sem largar seus trocados.

isso aqui não é um poema

Quero te escrever um poema,
mas estou péssima para escrever.
Estou péssima para qualquer coisa.

As pessoas andam pelas ruas, curiosas
umas das outras.
As observo aqui da janela
(também sou curiosa).

Curiosidade não faz poema.
Ou faz?

Escrever como se sente todo mundo escreve.
“Meu querido diário, o meu dia de hoje
se foi.”
Assim como o de ontem.
Assim como os de antes.

Não, isso aqui não é um poema.
Isso aqui é aquela história que estou inventando.

Nada do que eu disse aqui é real, agora.
Mas talvez seja real, um dia
para as traças, que comerão este papel.
Para alguém que classificar isso aqui
como um poema.

Claudio Seto: O Samurai de Curitiba

A história que vou contar é uma entre muitas que se pode contar sobre Claudio Seto. Ele, um ser iluminado, ajudou tantos quanto pôde durante a vida — e continua unindo as pessoas onde quer que esteja. Foi inúmeros em um só, desde o compenetrado bonsaísta até o excêntrico mago; mas nacionalmente é conhecido como o primeiro mangaká (desenhista de quadrinhos em estilo japonês) a publicar mangás no Brasil — antes mesmo de serem publicados títulos japoneses em terras tupiniquins, dizem.

No entanto, em Curitiba, Seto deixou uma marca especial: na cidade em que nasci, ele é lembrado pela alcunha de agitador cultural — mais especificamente de agitador da cultura japonesa.

Claudio Seto (foto de Denise Somera)

Claudio Seto chegou a Curitiba em 17 de julho de 1975, no “dia da neve”. Quase que exatos onze anos antes de eu nascer, Seto desembarcou logo cedo numa cidade em festa, com as famílias brincando em meio aos flocos brancos acumulados nos parabrisas dos carros e nos jardins. As pessoas celebravam, se abraçavam e cumprimentavam umas às outras. Foi nesse clima de festa que ele e Mitsue, sua esposa, se aproximaram de um bar para pedir uma bebida quente. O dono do bar os recebeu de braços abertos, em êxtase por ver a neve pela primeira vez. Seto pediu um Steinhäger; o dono do bar puxou uma garrafa, encheu o copo e lhe entregou uma dose, como que a um amigo de longa data, dizendo que não era preciso pagar.

Ao ser tão bem recebido na cidade em que acabara de chegar, Seto não teve dúvida: acreditou que havia encontrado o “Paraíso na Terra” e escolheu Curitiba como sua nova morada.

O clima hospitaleiro de fato contrastava com o que ele tinha vivido dois anos antes, em meio à ditadura militar. Com o fechamento da editora Edrel, de São Paulo, devido à censura, Seto havia desistido de produzir histórias em quadrinhos e estava em busca de um novo ganha-pão. O que ele não esperava, ao chegar na cidade, é que em breve Curitiba realmente seria um pequeno “Paraíso na Terra” — tanto para Seto quanto para os outros artistas que tiveram a oportunidade de trabalhar na editora Grafipar.

Seto não só não parou de desenhar histórias em quadrinhos como vestiu a camisa de editor e auxiliou muitos artistas dentro e fora da editora. Era Seto quem recebia e acomodava os ilustradores que vinham de outras cidades para trabalhar na Grafipar, como Carlos Magno, Gustavo Machado, Franco de Rosa, Watson Portela e Itamar, formando com eles a Vila dos Quadrinistas, localizada perto da casa de Seto, no bairro São Brás.

Foram quase dez anos de ouro na produção de histórias em quadrinhos. No entanto, com o fechamento da Grafipar, em 1984, Seto se distanciou cada vez mais dos quadrinhos. Seu último trabalho no gênero foi História de Curitiba em quadrinhos, publicado em 1993.

Foi mais ou menos nessa época que, envolvido com as questões políticas da cidade, Seto se transformou em uma ponte entre a comunidade japonesa e o poder público. Foi por causa dele que a Praça do Japão deixou de ser um projeto para se tornar realidade e as festas juninas, que aconteciam dentro do Nikkei Clube, se transformaram nos festivais japoneses Imin Matsuri e Haru Matsuri — que, em poucos anos, se tornariam um símbolo da cultura japonesa em Curitiba.

Em 2006, eu conhecia apenas parte da fama de Seto. Sabia que ele tinha sido um grande quadrinista e que trabalhava no jornal O Estado do Paraná. No entanto, a figura que eu encontraria em breve seria outra; ainda mais esotérica e taciturna do que eu poderia esperar.

Já havia visto Seto em algum matsuri quando liguei para ele pedindo uma entrevista. Na época, eu era uma estudante de jornalismo fazendo um trabalho para a matéria de rádio. Como contumaz admiradora do Japão, convenci meu grupo a utilizar a temática japonesa no trabalho. Assim, elaboramos uma série de programas chamada “Estação Anime” e incluímos a tal entrevista.

Entrevista com Claudio Seto realizada para o programa Estação Anime (clique no player para ouvir)

Encontrei o Seto no estacionamento da PUCPR numa manhã de maio. Lembro-me que o sol começava a criar força quando o vi. Meio sem saber como conversar com um artista que eu admirava, contei que o campus de rádio e TV ficava ali perto, expliquei o caminho e avisei que nos encontraríamos lá. Foi quando ele sugeriu para irmos juntos, no carro dele.

Seu carro era branco (um fiesta?), popular, simples. Sentei-me ao seu lado, no banco de passageiro e, apesar de nervosa (estava ao lado de um grande artista!), a energia ali era boa, tranquilizadora. Em pouco tempo, eu descobriria que essa era a sensação que todos tinham quando Seto estava por perto: uma alegria leve e descontraída, de quem vive com o coração aberto.

Ao fim da entrevista, pedi algo que, segundos depois, descobri que era uma gafe: que Seto desenhasse caricaturas nossas. Mesmo comentando que não fazia mais caricaturas, ele desenhou cada uma de nós — éramos três, no total — em papéis tamanho A6, e nos entregou. Foi a primeira e única vez que pedi caricaturas de graça para um ilustrador.

O que poderia ser um contato pontual tornou-se o início de uma amizade. No mês seguinte, durante o Imin Matsuri, num desses perrengues da vida, pedi ajuda a ele e a Mitsue para vender os botons de anime que eu havia produzido. Mesmo sem saber direito o que eram botons, eles não só expuseram os produtos em sua barraca durante toda a feira, como ficaram vendendo sem me pedir nada em troca.

Sem saber, eu tinha sido acolhida pelo Seto assim como foram tantos artistas antes de mim. E, sendo sincera, eu precisava ser acolhida.

Foi através do Seto que, nos meses seguintes, conheci outras tantas pessoas que fazem parte da minha vida japonesa: Claudia Suemi, Yurie Handa, Maria Helena Uyeda, Yuuichi Oshima, Chuniti Kawamura, Akiyoshi Oeda; todos pedacinhos do zembatsuru que teríamos que construir depois que Seto nos deixasse.

Mas antes que nossa amizade fosse interrompida pela brevidade da vida, participei da organização de vários festivais japoneses, muitas vezes como representante da cultura pop japonesa — uma área bastante defendida por ele. Seto entendia como ninguém que a cultura é uma manifestação popular e, portanto, é mutável. Ele tinha, pela cultura pop, o mesmo respeito que pela cultura tradicional, sendo uma figura apaziguadora de conflitos de geração.

Mesmo que fosse irritado, humilhado ou contrariado, ele possuía sabedoria para manter-se firme e lidar com as adversidades. Lembro-me de uma conversa, no restaurante do hotel Hara, sobre a liberação de verba para pagar os organizadores (no caso, quase todos os nomes que citei acima) do Imin 100, o festival em comemoração ao centenário da imigração japonesa no Brasil, realizado em junho de 2008. Apesar do cabo de guerra e da defesa de que “trabalha-se de graça pela comunidade japonesa”, Seto, mesmo contrariado, não deixou que a irritação o dominasse. 

Em outubro de 2008, um mês antes dele partir, vesti um kimono pela primeira vez e subi ao palco. Quanto mais conhecia sobre o Seto, mais o admirava, então decidi homenageá-lo durante o Haru Matsuri. Apesar da timidez e do receio da exposição excessiva, me coloquei diante de um microfone aberto para o público do festival e li o texto que havia escrito dias antes, falando sobre a trajetória artística do Seto. Ele sorria com o olhar, como se soubesse mais do que todos os presentes.

Homenagem à Claudio Seto no Haru Matsuri de 2008
Da esquerda para a direita: Yurie Handa, Claudio Seto, Suemi Hamasaki e Mylle Silva (foto de Chuniti Kawamura)

No dia 15 de novembro, Claudio Seto sofreu um AVC e nos deixou.

Entrevistei-o em outras ocasiões. Dentre as várias perguntas para a minha monografia sobre festivais japoneses em Curitiba, não resisti em sanar uma curiosidade:

— Seto, por que você desistiu de fazer histórias em quadrinhos?
— Porque não dá dinheiro.

Eis um conselho que não ouvi. Sete anos depois que ele nos deixou, publiquei minha primeira história em quadrinhos, chamada A Samurai. Nela, criei o personagem Mestre Seto, o mentor da protagonista Michiko — uma de tantas demonstrações de que ainda vibra em mim tudo o que aprendi com o Samurai (agitador cultural) de Curitiba.

vou te contar uma história

Vou te contar uma história sobre a história que quero te contar.
Serei eu a história, e você, a história da história que ouviu.
Não porque estaremos apagados ou desfeitos,
menos ainda porque somos mortais.

Ser história é nosso super poder 
— e eu quero usá-lo ao máximo.

Estou prestes a ser a história que estou te contando agora.

Mesmo que não pareça história, é.
Mesmo que não seja história, posso fazer parecer ser.
Basta uma curva depois do drama,
uma subida depois da quebra.
Basta eu estar disposta a fazer 
e você, disposto a acreditar.

Você já está achando que isso aqui é uma história.

Continue achando.
Continue.

Só vim aqui para me inventar na sua frente.
Vim para começar a história que me esperava para ser.

Você está na primeira fileira.
Você é toda a plateia.
Você é a parte da história 
que eu não posso ser.