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Processo de escrita do roteiro de A Samurai: Sujimichi

Hoje quero falar sobre o processo de criação do roteiro de A Samurai: Sujimichi.

Mas antes quero te lembrar que preciso da sua ajuda em www.catarse.me/asamurai3 para imprimir essa história em quadrinhos e materializar a trilogia completa de A Samurai.

Como você deve saber, sou escritora. Isso significa que, apesar de eu publicar histórias em quadrinhos, não sou eu que as desenho. O meu trabalho é escrever as histórias — ou melhor, os roteiros — e encontrar ilustradores dispostos a transformar minhas palavras em desenhos.

O meu processo de construção de roteiro evoluiu bastante desde o primeiro volume de A Samurai — que, aliás, foi o meu primeiro roteiro para histórias em quadrinhos. De 2015 para cá, passei de uma escrita sucinta dos quadros para descrições mais detalhadas, como fotografias, de como imagino o frame que quero congelar do filme que passa dentro da minha cabeça enquanto crio a história.

Argumento e lista de personagens

No entanto, para que o trabalho de escrita do roteiro seja o mais próximo ao resultado que espero, antes de começa-lo escrevo um argumento. Essa ideia, que peguei emprestada do cinema, nada mais é do que escrever cada uma das cenas em texto corrido e no tempo presente, como se uma peça de teatro estivesse passando bem diante dos meus olhos.

Essa escrita prévia me ajuda a entender, antes de escrever o roteiro propriamente dito, quais cenas funcionam e quais cenas podem ser melhoradas ou até descartadas.

Em A Samurai: Sujimichi, além do argumento, também elaborei uma lista de personagens, com a descrição de cada um e suas funções ao longo da trilogia. Juntos, o argumento e a lista de personagens serviram como guias para o processo de escrita do roteiro.

Só depois de escrever o argumento e me afastar do projeto por alguns dias — escrever e esquecer o que escrevemos é a chave para melhorarmos continuamente o que produzimos — é que, enfim, comecei a trabalhar no roteiro.

Primeira versão do roteiro

A primeira versão do roteiro é a parte mais gostosa de escrever, porque é quando eu crio a história de fato. É nessa fase que vivo cada uma das emoções dos personagens, luto com eles, presencio cada cena como se ela estivesse acontecendo diante dos meus olhos. É um processo sofrido, cansativo e gratificante na mesma medida.

Posso dizer que a criação é minha fase preferida do processo de elaboração de uma história.

Há duas características especiais em A Samurai: Sujimichi: cada capítulo tem um traço diferente e uma cor predominante. Com isso em mente, logo na primeira versão procurei atribuir um clima distinto para cada capítulo e comecei a imaginar qual dos oito ilustradores participantes do projeto combinaria com esse clima. Nessa fase inicial, é claro, todas as escolhas são provisórias; a prioridade é escrever a história de forma livre, então quanto menos amarras eu tiver nesse momento da escrita, melhor.

O processo da elaboração do argumento até a finalização da primeira versão do roteiro deve ter levado cerca de 25 dias — algo que considero rápido, dado o tamanho da HQ.

Processo de reescrita

Me afastei do roteiro por uma semana — o processo criativo é um eterno vai e vem — para então imprimi-lo e lê-lo em outro suporte que não uma tela. Papel e caneta na mão, comecei a ler e rabiscar tudo o que gostaria de melhorar no roteiro.

Há uma diferença entre simplesmente apagar algo que você escreveu e fazer apontamentos com a caneta sobre um texto impresso. Em tempos em que escrever e publicar no formato digital é tão fácil, há uma riqueza em trazer ao mundo físico os nossos processos de produção. Ver a quantidade de páginas e sentir o peso do papel nos dá um senso de realização.

(Se você escreve, recomendo muito que sempre imprima os seus textos)

A partir daqui, comecei o trabalho braçal: uma série de releituras, edições e pausas que levaram mais quinze dias até eu bater o martelo e dizer “está pronto”. Claro que esse “está pronto” nunca vem acompanhado de uma certeza absoluta, mas a incerteza faz parte de todo o processo criativo.

Com o roteiro pronto, escolhi as cores e os ilustradores definitivos para cada capítulo; separei a pasta de referências, a lista de personagens e enviei todo o material para a próxima fase: a produção das páginas.

Me ajude a materializar A Samurai: Sujimichi

Agora que você já sabe como foi o processo de criação do roteiro de A Samurai: Sujimichi, o que acha de me ajudar a trazer essa história em quadrinhos digital para o mundo físico? Se você ainda não visitou o projeto, é só chegar junto emwww.catarse.me/asamurai3.

Se você já apoiou a campanha, muito obrigada pela sua ajuda e por ler até aqui! No momento, preciso de toda ajuda possível para alcançar novos apoiadores, então se você puder tirar um tempinho para compartilhar a campanha nas suas redes, eu agradeço muito.

E caso você ainda não tenha lido a edição digital de A Samurai: Sujimichi, é só visitar www.asamurai.com.br e lê-la gratuitamente.

Série Mudanças — Ep 01: Mudando de caderno (210.814)

“Mudanças” é uma série de reflexões curtas escrita e narrada por Mylle Silva sobre o processo de mudança de casa.

A série “Mudanças” é uma produção da Têmpora Criativa.

Se você gostou desse episódio, não deixe de assinar nossa newsletter cultural Lambrequim para receber conteúdos sobre literatura e música toda quarta-feira de manhã.

Edição e Música original: Cássio Menin

Ep. 01: Mudando de caderno (210.814)

Mudanças. Parece que estamos condenados a duas condições na vida: a mudar e a repetir. Dois antagônicos complementares, que se mesclam a depender do ponto de vista. Mudamos e repetimos pelas mesmas necessidades e com a mesma distração.

Mudar de casa me coloca nesse estado, como se não houvesse lugar seguro para eu ser eu mesma. Os espaços, ainda estranhos, me ameaçam, me oprimem, exigindo de mim um poder de adaptação que não tenho. No fim, ao contrário do que a eu adolescente cria, a verdadeira eu é uma amante da rotina e se desestabiliza sempre que arrancada dessa rotina contra sua vontade.

Por sorte, há tantos quanto eu e, por mais sorte ainda, expressando seus dissabores através da literatura. Por sorte, posso abrir um novo caderno e começar uma nova história onde quer que eu esteja. Meu lugar é entre as palavras; meu lugar é onde quer que eu possa escrever.

Produzindo A Samurai: sobre a importância de concluir projetos

A partir de hoje quero conversar com você sobre os bastidores da produção das HQs da série A Samurai.

E, para começar, quero te contar como foi o processo de produção de A Samurai: Sujimichi, que você pode apoiar em www.catarse.me/asamurai3.

Depois de publicar o spin-off A Samurai: Primeira Batalha, fiquei alguns anos em dúvida sobre como viabilizaria a conclusão da trilogia.

Confesso que tinha receio de iniciar uma nova campanha de financiamento coletivo porque os custos de produção são altos. Não é tão simples assim levantar grana sem uma base de leitores dispostos a apostar no projeto antes da produção.

Com o tempo, vieram novos projetos e, infelizmente, a pandemia, que fez com que todos nós revíssemos nossas prioridades. Para mim, esse tem sido um período de conclusão de ciclos — e o ciclo d’A Samurai é um deles.

Primeira página de A Samurai: Sujimichi, ilustrada por Caio Yo

A coragem para retomar o projeto

Com a abertura dos editais emergenciais provenientes da Lei Aldir Blanc, eu vi uma chance de levantar a grana necessária para produzir a HQ sem depender tanto do financiamento coletivo. Assim, no final de 2020, convoquei todos os ilustradores que participaram das edições anteriores do projeto e inscrevi A Samurai: Sujimichi no edital.

Para minha felicidade, fui aprovada com nota máxima e logo comecei a trabalhar no roteiro, em janeiro deste ano.

E foi assim, escrevendo o roteiro, que descobri como era importante terminar a história da Michiko. Foi só quando cheguei ao ponto final da primeira versão que conheci, de fato, o tema central de A Samurai: autodescoberta.

Algumas páginas do roteiro, disponíveis nos extras da HQ

O verdadeiro tema da série A Samurai

Juntos, os três volumes de A Samurai formam uma jornada de autodescoberta, tanto minha quanto da Michiko. Vi isso com clareza ao concluir A Samurai: Sujimichi e tive a confirmação disso com o feedback das pessoas que leram a trilogia em sequência.

A Samurai: Sujimichi é uma história sobre como podemos lidar com a nossa escuridão. Eu, assim como muitos, carrego um lado sombrio que insiste em tentar me paralisar. Mas, assim como a Michiko, preciso aprender a transformar minhas trevas em luz, em combustível para continuar a jornada.

Hoje posso dizer que a saga da Samurai é sobre querer algo a ponto de transformar sua vida para lutar por aquilo. É sobre errar muito no caminho e descobrir, em algum ponto da jornada, o quanto as trevas estavam te paralisando e te destruindo. É sobre perceber que a única forma de vencê-las é assumindo o controle sobre elas.

A tarefa, é claro, não é fácil — mas foi por isso mesmo que escrevi A Samurai: Sujimichi: para nunca me esquecer de que é possível.

Esboço da página em que Michiko enfrenta sua escuridão, ilustrada por Vencys Lao

Vamos imprimir essa HQ juntos?

Agora que você conhece o tema da trilogia de A Samurai, é hora de chamar mais apoiadores para essa campanha.

Se você já é um apoiador, muito obrigada! Você é responsável por me fazer acreditar que é possível imprimir essa HQ e pode me ajudar com a divulgação da campanha.

E se você ainda não apoiou o projeto, te incentivo a fazê-lo. Caso ainda não tenha visitado www.asamurai.com.br e lido a edição digital de A Samurai: Sujimichi, tire um tempinho para fazê-lo.

Depois, garanta a sua edição impressa — mas só se você quiser.

Torne-se um apoiador do projeto em www.catarse.me/asamurai3

Transformando friacas em vilãs de HQs

🥶 Achou que ia fugir da Friaca?

Spoiler da HQ sobre a primeira ambulância de um famoso hospital pediátrico aqui de Curitiba que eu e a @amandagodoibarros estamos finalizando.

Escrever uma HQ infanto-juvenil sobre uma ambulância sem poder mencionar, em nenhum momento, doenças, complicações ou sequer um “se cuide!” foi complexo.

No entanto, com a ajuda das coordenadoras do projeto, abri minha mente para outras alternativas — uma delas foi transformar o clima nos inimigos da ambulância.

Friaca caravan e os super nelsons
Quadro com a Friaca atrapalhando a Caravan e os Super Nelsons

Um dos desafios dos Super Nelsons (sim, uma coincidência da vida real é que ambos, motorista e médico, se chamam Nelsons) era transportar os bebês quentinhos pela cidade.

Como a história é ambientada em 1990, lembrei-me de como fazia muito mais frio de manhã quando eu ia para a escola — um frio igual ao de hoje, em Curitiba — e assim nasceu uma vilã, a Friaca.

De todas as lições que aprendi nesses meses de produção, destaco duas: que é possível abordar assuntos pesados de uma maneira leve e lúdica e que eu e a Amanda trabalhamos muito bem juntas (principalmente em temas infanto-juvenis)!

Essa HQ está linda (arrisco dizer que é uma das minhas melhores histórias) e espero poder mostrá-la ao mundo em algum momento.

Uma arrogância que concordei em discordar

É incrível como podemos concordar e discordar, na mesma medida, de um livro que acabamos de ler.

Lemos por diferentes motivos: em busca de novas histórias, de conhecimento, de distração, de reflexão ou, até mesmo, de respostas sobre nós e o mundo que nos rodeia. Quando peguei A civilização do espetáculo, do escritor peruano Mario Vargas Llosa, eu estava em busca de resposta sobre o mundo — em especial, sobre a sociedade em que vivemos. Ou, talvez, estivesse buscando algo mais do que isso: alguém com quem concordar.

Mario Vargas Llosa - A civilização do espetáculo livro Mylle

O encanto começou logo no título. Depois da minha reflexão sobre as redes sociais, eu estava no clima de uma civilização do espetáculo. Disse sim, sim e SIM quando o autor afirmou que as imagens estavam substituindo — e até matando — a palavra. Vibrei ao ler que os intelectuais não tinham mais voz na sociedade de hoje e senti-me vingada com as seguidas afirmações de que a cultura mundial não só foi banalizada como retrocedeu nos últimos cinquenta anos.

No entanto, havia algo cheirando mal nas entrelinhas. Algo que, no afã de concordar com algumas ideias do autor, eu me negava a admitir.

De T. S. Eliot a Frédéric Martel a ideia de cultura experimentou muito mais que uma evolução paulatina: uma mudança traumática, da qual surgiu uma realidade nova em que restam apenas rastros da que foi substituída.

Mario Vargas Llosa, em A civilização do espetáculo

Ler um livro sem indicações ou curadoria prévias tem lá suas vantagens. Tenho, cá dentro de mim, que se o texto está em um livro editado por uma grande editora, algum valor — seja intelectual ou informativo — ele tem. Mas isso, é claro, não garante o mágico encontro de mentes que concordam em gênero, número e grau, proporcionado pela literatura.

Apesar de eu (ainda) não ter lido nenhum dos seus livros de ficção, Mario Vargas Llosa recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 2010 é tido como um dos maiores escritores latino-americanos do nosso tempo. Ou seja, eu não precisava de nenhuma indicação para confiar que estava explorando uma área segura, certo?

Mas os indícios de que daria ruim estavam lá, já no prefácio: segundo ele, a cultura “degringolou” em nosso tempo porque não está mais nas mãos de uma elite cultural. Em outras palavras, o problema é, se todos têm acesso à cultura e todas as expressões são consideradas cultura, não existe mais cultura.

Queríamos acabar com as elites, que nos repugnavam moralmente pelo tom privilegiado, depreciativo e discriminatório com que seu simples nome ressoava perante nossos ideais igualitários; ao longo do tempo, a partir de diferentes trincheiras, fomos contestando e desmontando esse corpo exclusivo de pedantes que se acreditavam superiores e se jactavam de monopolizar o saber, os valores morais, a elegância intelectual e o bom gosto. Mas conseguimos uma vitória de Pirro, um remédio pior que a doença: viver na confusão de um mundo onde, paradoxalmente, como já não há maneira de saber o que é cultura, tudo é cultura e nada é cultura.

Mario Vargas Llosa, em A civilização do espetáculo

Achei estranho, mas segui em frente — é apenas um detalhe, certo? O resto fazia sentido. Assim como era apenas um detalhe 95% das suas referências artísticas serem homens, certo? Apesar disso, eu teria sobrevivido à leitura sem arranhões.

Minhas dúvidas sobre a visão política do autor se desfizeram quando ele comparou, repetidas vezes, o Wiki Leaks ao exibicionismo de nosso tempo, como se os vazamentos não passassem de fofocas bem elaboradas. Ele chega a afirmar que as informações vazadas não trouxeram nada novo além do que já não desconfiássemos.

Foi então que olhei o livro e ele olhou para mim. Desistir? Só porque não concordo com o que você está dizendo? O questionamento me atingiu. Metade de mim era uma senhora de direita, que concordava com alguns pensamentos do autor; outra metade, a Mylle de sempre. Segui com a leitura, até o fim.

Custa-me imaginar que os tablets eletrônicos, idênticos, anódinos, intercambiáveis e funcionais a mais não poder, consigam despertar esse prazer táctil prenhe de sensualidade que livros de papel despertam em certos leitores.

Mario Vargas Llosa, em A civilização do espetáculo

Além do tom direitista presente em todo o discurso do autor, encontrei um eco de arrogânciao mesmo eco que, às vezes, ouço dentro de mim. No final das contas, eu queria uma leitura que confirmasse tudo o que penso sobre a banalização da literatura e o fim da nossa cultura estava certo; que afirmasse o sufocamento do meu papel no mundo.

Haja pretensão.

Papel. Propósito. Função. Pedaços de narrativas que nos contamos para dar sentido ao nosso mundo interior e às nossas escolhas. Nem escrita, nem cultura e nem crítica são melhores do que nada — e quanto mais tempo ficarmos em nossas bolhas pretensiosas, menos enxergaremos a beleza da evolução do mundo.

As pessoas abrem um jornal, vão ao cinema, ligam a tevê ou compram um livro para se entreter, no sentido mais ligeiro da palavra, não para martirizar o cérebro com preocupações, problemas, dúvidas. Só para distrair-se, esquecer-se das coisas sérias, profundas, inquietantes e difíceis, e entregar-se a um devaneio ligeiro, ameno, superficial, alegre e sinceramente estúpido.

Mario Vargas Llosa, em A civilização do espetáculo

Ainda bem que vivo em um mundo cheio de livros para discordar.

Publicar, ato de coragem

Texto de apresentação do e-book Olhares Empoderados • Volume I, uma coletânea com 13 contos escritos pelas participantes da oficina homônima, ministrada por mim de setembro a novembro de 2020.


Escrever, ato de alteridade. Enquanto escrevemos, reconhecemos a nós mesmos no outro, mesmo que num outro ficcional. Olhos de imaginação-além; olhos de sentir-ser, dança descompassada que ora se suprime o eu, ora o extrapola.

Se escrever é alteridade, publicar é coragem. É estar à margem de um mundo barulhento e, da borda, gritar Fiz um barulhinho aqui, vem ouvir!, na esperança de que as ondas sonoras vibrem aqui-acolá as membranas auriculares do tempo.

Capa da coletânea de contos Olhares Empoderados • Volume I

Olhares Empoderados • Volume I é uma coletânea de contos composta por treze coragens. Trezes pedaços de vida encapsulados em letras. Trezes encontros partilhados numa oficina — online, por acaso da pandemia. Homônimas por coincidência de tema, oficina e coletânea se entrelaçam no fazer-livro.

Num mundo isolado por imposição, queremos ter certeza de que estamos gritando para além das nossas paredes. Queremos ser-explodir em forma de — me perdoem os céticos — arte. Queremos unir em laços o indizível, arrebatar formigas e dizer aos sapos beijados que eles podem ser quem eles quiserem. Num mundo isolado, o que a gente mais quer é poder olhar o outro nos olhos e resultar conexão.

Publicar é ato de coragem porque cada texto é um olhar para dentro a alma do autor. O amontoado de palavras esconde um enxergar que só você, ao decifrá-lo, poderá desvendar. Eis agora, em suas pupilas, treze chances de descortinar cada autora além das letras. Abra os olhos do coração e leia. O momento em que você enxergar, de verdade, terá seu olhar empoderado.


O e-book foi lançado no dia 13 de abril de 2021. Na ocasião, reuni todas as escritoras em uma live e na qual cada uma contou um pouquinho sobre o conto publicado.

O fim da autenticidade e o vício disfarçado de engajamento

Sou escritora. Entre os altos e baixos da vida, tive a chance de escolher ser escritora e encontrar um caminho para pagar os boletos trabalhando com as palavras. Quanto a isso, não posso reclamar.

Sou da geração que viveu a infância sem internet e viu o mundo se transformar ao longo da adolescência. Ao mesmo tempo em que escrevia textos para os murais e jornais da escola, aprendi HTML na era pré-blog e comecei a montar minhas próprias home pages. Aquele espaço dividido em frames, com cursores de borboletas, neve caindo e barras de rolagem coloridas foram mágicos e cruciais para desenvolver a minha autenticidade.

Havia, é claro, contadores de visitas nesses sites pré-blog, e até mesmo nos blogs, mas nada comparado à exaustão provocada hoje por métricas, seguidores, curtidas e engajamentos. Antes das técnicas de SEO e das redes sociais, sites e blogs eram espaços de livre expressão, que proporcionavam a todos autenticidade e liberdade tanto de forma quanto de conteúdo. Os criadores de conteúdos não eram avaliados ou se avaliavam por números, mas sim pela qualidade das relações que proporcionavam. Isso sim é um belo conceito de fama, não acha?

A Bummer substitui seu contexto pelo contexto dela. Do ponto de vista dos algoritmos, você já não é um nome, mas um número: o número de seguidores, curtidas, cliques ou outras medidas da sua contribuição para a máquina em tempo real.

Jaron Lanier, em Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais

Abandonamos muitos hábitos – como visitar blogs, buscar conteúdos diversos e se importar menos com números – por causa das redes sociais. O argumento pode soar batido ou até mesmo conspiratório, mas ganha peso quando Jaron Lanier, desenvolvedor dos primórdios do Vale do Silício, conta como as redes sociais estão modificando nossos hábitos e a nossa relação com o mundo.

Nas estantes das livrarias (quando, nos tempos pré-pandemia, podíamos ir até elas) o título 10 argumentos para você deletar agora suas redes sociais sempre captava minha atenção, como o olhar cúmplice do amigo capaz de ler meus pensamentos. Faltava, é claro, o tempero da coragem para, através da leitura, transformar o pressentimento em conhecimento.

Semana passada venci o tal medo, peguei o e-book e descobri que minhas críticas às redes sociais tinham fundamento.

À medida que os algoritmos foram evoluindo para personalizar nossas buscas e feeds, mais vigiados e limitados nos tornamos dentro da internet. Esses grandes gênios da tecnologia dos quais tanto falamos transformaram o ideal de acesso ilimitado ao conhecimento humano em uma corrida frenética por atenção – e pior, nós a alimentamos todos os dias!

Lanier chama as redes de Máquinas BummerBehaviors of Users Modified and Made into Empires for Rent (Comportamentos de usuários modificados e transformados em impérios para alugar, em tradução livre). Ou seja, como as redes sociais estão ganhando dinheiro com o nosso trabalho, enquanto nós estamos cada vez trabalhando mais.

A Bummer é uma máquina com seis partes móveis. Eis um recurso para memorizar os seis componentes da máquina, caso você tenha que se lembrar deles para algum teste: A de Aquisição de Atenção que resulta na supremacia do babaca B de meter o Bedelho na vida de todo mundo C de Comprimir Conteúdo goela das pessoas abaixo D de Direcionar o comportamento das pessoas da maneira mais sorrateira possível E de Embolsar dinheiro ao deixar que os maiores babacas ferrem secretamente todas as outras pessoas F de multidões Falsas e sociedade Falsificadora.

Jaron Lanier, em Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais

Um ótimo exemplo que o autor dá é o da obsolescência dos tradutores. Em teoria, ferramentas como o Google Translate em breve substituirão os tradutores-pessoas, certo? No entanto, a questão é que a língua é um ente vivo e nenhuma IA é capaz de acompanhar todas as mudanças, gírias e novas palavras que surgem em cada idioma. A verdade é que cada um de nós, quando usamos uma ferramenta de tradução, estamos alimentando a máquina, dando o nosso conhecimento para o Google sem receber nada em troca.

Em outras palavras, o que nós, como sociedade, julgamos obsoleto – como a escrita para blogs, sites ou ao busca de informações fora das redes sociais – nada mais é do que uma mudança massiva de comportamento. Até aí, tudo bem; a humanidade já passou por diversas mudanças de comportamento ao longo da história. O problema é que o objetivo dessas mudanças é nos deixar mais tristes e enriquecer os gigantes do Vale do Silício.

Nós modificamos o comportamento uns dos outros o tempo todo, e isso é bom. Afinal, só uma pessoa insensível e indiferente não mudaria seu modo de agir em função de como o outro reage. Quando a modificação de comportamento mútua funciona, talvez isso seja parte daquilo que chamamos de amor. Não precisamos pensar em livre-arbítrio como se fosse uma intervenção sobrenatural em nosso universo. Talvez o livre-arbítrio exista quando nossa adaptação ao outro e ao mundo ganha uma qualidade excepcionalmente criativa.

Portanto, o problema não é a mudança comportamental em si. O problema é quando isso acontece de maneira implacável, robótica e, no fim das contas, sem sentido, a serviço de manipuladores invisíveis e algoritmos indiferentes.

Jaron Lanier, em Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais

Logo no começo do meu argumento, disse que escolhi ser escritora e estou bem resolvida com isso. No entanto, me incomoda pensar quantas vezes fui levada a modificar comportamentos para poder divulgar meu trabalho, tanto literário quanto informativo.

Pense em quantas atividades precisamos nos sujeitar para poder ressoar no mundo de hoje. Como somos validados ou validamos pessoas e instituições por causa dos números que elas apresentam em suas redes. Em todas as técnicas que estudamos para convencer quando deveríamos divulgar conhecimentos maciços.

De início pode parecer uma contradição, mas não é; processos coletivos fazem mais sentido quando os participantes agem como indivíduos.

Jaron Lanier, em Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais

Se você, assim como eu, quer divulgar o seu trabalho nesse mundo atribulado, logo perceberá que deletar suas redes sociais significa ser esquecido. E sim, todos tememos o esquecimento.

Qual é a saída então? A única saída é um aforismo do grego antigo: conhece a ti mesmo. Conhecer como você se relaciona com a tecnologia e compreender o quanto ela te afeta é a única forma de viver bem hoje. Leia, estude e encontre as suas maneiras de escapar das redes sociais, como eu decidi fazer a partir de agora. Apesar de não deletar minhas redes sociais, passarei a produzir conteúdos fora delas, porque é essa a comunicação que eu, como escritora, escolhi desenvolver.

E se escutar uma voz interior ou levar em consideração uma paixão por ética ou beleza proporcionasse um trabalho mais importante a longo prazo, mesmo que considerado menos bem-sucedido no momento? E se atingir profundamente um pequeno número de pessoas for mais importante do que atingir todo mundo com nada?

Jaron Lanier, em Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais

Já pensou que loucura seria?

🐉 Tanizaki Dragão, um novo personagem em A Samurai: Sujimichi

Bateu aquele medo de gerar um deus ex machina quando comecei a escrever o roteiro da HQ A Samurai: Sujimichi.

Há dois anos, pensando em como poderia concluir a saga da Michiko, anotei em um papel qualquer: “o pai da Michiko foi possuído por um dragão maligno”.

Ótimo, explica muita coisa. Só que não.

Podia soar como uma solução fácil, uma explicação divina, um atalho narrativo.

Ou seja, um perfeito deus ex machina.

A fuga desse fantasma narrativa é uma só: inserir dicas do novo elemento desde o início da narrativa.

O problema é que não posso inserir o Tanizaki Dragão nas HQs que já estão impressas.

Tanizaki Dragão, um novo personagem em A Samurai: Sujimichi Mylle Silva

Para minha sorte, foi fácil resolver o problema: como no primeiro volume da trilogia d’A Samurai a narração fica restrita à Michiko, foi fácil mostrar que o Dragão sempre existiu – era a protagonista que não o conhecia.

É claro, essa é a minha opinião, como roteirista.

Em breve, você poderá me dizer se a criação de um novo personagem funcionou ou não.

A Samurai: Sujimichi estará disponível para leitura gratuita em formato digital a partir de maio de 2021.

Enquanto isso, aproveite para ler o primeiro volume da trilogia, disponível na Amazon.

🖼 Referências de cenários na HQ Doce Jazz

Sou uma colecionadora de memórias.

Durante meu intercâmbio no Japão, fiz questão de tirar fotos dos mínimos detalhes do meu quarto e dos arredores, pois sabia que, em breve, me esqueceria de tudo.

(Ou talvez o desejo de transformar a experiência em narrativa já estivesse em mim)

Fotografei o pendurador de chaves. A maçaneta. A plaquinha do lado de fora do quarto. O quadro de cortiça. A geladeira, a cama, a TV.

O universo a mim emprestado por seis meses.

Ao terminar o roteiro do Doce Jazz, sabia que deveria entregar à Melissa Garabeli o maior número possível de referências visuais.

Foi assim que, vasculhando as fotos que havia tirado, percebi que não seriam o suficiente.

Fotografia de recordação nem sempre serve como referência.

Me vi mandando fotos das folhas secas cobrindo o chão do bicicletário. Da fileira de pardais no fio de luz. Da neve escondendo metade do relógio da praça.

Apesar desses detalhes terem sido fundamentais na composição dos cenários, eles não eram os cenários.

Imagens de referência para cenários precisam ser objetivas.

Foi então que passeie novamente pelos arredores da TUFS (Tokyo University of Foreign Studies), através do Google Maps, e printando cada passo virtual.

Durante o intercâmbio, foquei nos detalhes, nos acontecimentos únicos ao meu redor.

Mas hoje, com o olhar de narradora, aprendi que perceber não é restrito.

Recortar enquanto se vive uma experiência é jogar fora uma parte importante daquela experiência.

Experencie o todo. Recorte apenas quando quiser contar.

Assim, você contará todas as histórias que quiser sobre a mesma experiência.

Se meu post te deixou com uma pontinha de curiosidade, conheça o Doce Jazz – na minha lojinha, a versão impressa, ou na Amazon, a versão digital.

Dois anos de lançamento da coletânea de contos Voejo

Porque (re)lembrar é (re)viver.

Dia 23/02 fará dois anos que lançamos o Voejo, a segunda coletânea de contos dos meus alunos de escrita.

De lá pra cá, inúmeros aprendizados, mudanças de casa, transformações no mundo.

Olhar as fotos do lançamento me lembrou o seguinte: não é todo dia que acordo acreditando na escrita.

E 23 de fevereiro de 2019 foi um dia em que acordei descrente.

Questionei a fundo o que estava fazendo da minha vida ao apostar tão alto em escrever.

Aquele era, de verdade, o caminho correto para seguir?

Hoje sei que não é nem correto, nem errado. É apenas o caminho.

A dicotomia entre certo e errado é para quem quer justificar os seus atos.

E eu não quero me justificar. Quero viver.

Estar vivo é aceitar que somos parte do caos da vida. Um dia tudo está em equilíbrio; no outro não.

Nós criamos narrativas pessoais para tentar explicar cada coisinha que nos acontece.

Porque viver às vezes é desconfortável.

Mas aqui vai uma dica de quem já lutou demais consigo mesma: vale a pena atravessar todos os conflitos, internos e externos.

Vale a pena apostar no que você acredita por mais um dia.

A recompensa é a alegria no olhar das pessoas que você pôde ajudar a evoluir.

Falando em ajudar a evoluir, quero te convidar para conhecer o meu Clube de Escrita. Dividido em três pacotes com conteúdos selecionados e exercícios exclusivos, o Clube de Escrita é um espaço criado para você desenvolver suas habilidades de escrita, no seu tempo.