A história que vou contar é uma entre inúmeras que se pode contar sobre Claudio Seto. Ele, um ser iluminado, ajudou tantos quanto pôde durante a vida – e continua unindo as pessoas onde quer que ele esteja. Foi inúmeros em um só, desde o compenetrado bonsaísta até o excêntrico mago; mas é conhecido nacionalmente como o primeiro mangaká (desenhista de quadrinhos japoneses) a publicar mangás no Brasil – antes mesmo da publicação de títulos japoneses, dizem.

No entanto, aqui no Japão do outro lado, ele é conhecido como um agitador da cultura japonesa – termo quase controverso em tempos em que a cultura precisa ser contida.

Já havia visto Seto em algum matsuri e conhecia toda sua fama quando liguei para ele pedindo uma entrevista. Na época, eu era uma estudante de jornalismo precisando fazer um trabalho de rádio – e era comum convencer todos do meu grupo a usar a temática japonesa nessas horas. Elaboramos uma série de programas e incluímos a tal entrevista.

Nos encontramos no estacionamento da PUCPR, numa manhã de maio de 2006. Lembro-me que o sol começava a criar força quando o vi e contei que o campus de jornalismo ficava ali perto. Expliquei que nos encontraríamos lá.

Foi quando ele disse para irmos todos juntos.

Seu carro era branco (um fiesta? sou péssima com nomes de carros), popular, simples. Sentei-me ao seu lado, no banco de passageiro e, apesar de nervosa (estava ao lado de um grande artista!), a energia ali era boa, tranquilizadora. Em pouco tempo, eu viria a descobrir que essa era a sensação que todos tinham quando Seto estava por perto: uma alegria leve e descontraída, de quem vive com o coração aberto.

(O caminho também foi emocionante: assim como era um tanto intransigente na vida, era também ao dirigir; mas sobrevivemos.)

Ao fim da entrevista, pedi algo que, segundos depois, descobri que era uma gafe: que Seto desenhasse eu e minhas colegas. Mesmo comentando que não fazia mais caricaturas, ele desenhou cada uma de nós – três, no total – em papéis tamanho A6, e nos entregou. Foi a primeira e única vez que pedi caricaturas à toa para alguém.

O que poderia ser um contato pontual tornou-se o início de uma amizade. No mês seguinte, durante o Imin Matsuri, num desses perrengues da vida, pedi ajuda a ele e a sua esposa, Mitsue, para vender os botons de anime que eu tinha produzido para a feira. Mesmo sem saber direito o que era, eles não só ficaram vendendo para mim como também não quiseram cobrar porcentagem alguma.

Foi nesse acaso, através do Seto, que conheci outras tantas pessoas que fariam parte da minha vida japonesa: Claudia Suemi, Yurie Handa, Maria Helena Uyeda, Marilia kubota, Yuuichi Oshima, Chuniti Kawamura, Akiyoshi Oeda; todos pedacinhos do zembatsuru que teríamos que construir depois que Seto nos deixasse.

Mas antes que nossa amizade fosse interrompida pela brevidade da vida, participei da organização de vários festivais japoneses, muitas vezes como representante da cultura pop japonesa – fator muito defendido por ele. Seto entendia como ninguém que a cultura é uma manifestação popular e, portanto, é mutável. Ele tinha, pela cultura pop, o mesmo respeito que pela cultura tradicional, sendo uma figura apaziguadora de conflitos de geração.

Mesmo que fosse irritado, humilhado ou contrariado, ele possuia a sabedoria de manter-se firme e lidar com as adversidades. Lembro-me de uma conversa, no restaurante do hotel Hara, sobre a liberação de verba para pagar os organizadores (no caso, quase todos os nomes que citei acima) do Imin 100, o festival em comemoração ao centenário da imigração japonesa no Brasil. Apesar do cabo de guerra e da defesa de que “trabalha-se de graça pela associação”, Seto, mesmo contrariado, não deixou que a irritação o dominasse.

Em outubro de 2008, um mês antes dele partir, vesti um kimono pela primeira vez e subi ao palco para ler o texto que escrevi em homenagem a ele. Acima da timidez e do receio da exposição excessiva, estava o amor que sentia por ele. Ele sorria com o olhar, como quem sabia mais do que todos os presentes. No dia 15 de novembro, enquanto eu prestava o vestibular para Letras Japonês, Claudio Seto sofreu um AVC e nos deixou.

Entrevistei-o em outras ocasiões. Dentre as várias perguntas para a minha monografia sobre festivais japoneses em Curitiba, não resisti em sanar uma curiosidade:

– Seto, por que você desistiu de fazer histórias em quadrinhos?

– Porque não dá dinheiro.

Eis um conselho que não ouvi – afinal, aprendi a ser intransigente com o grande mestre Samurai.

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