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Claudio Seto: O Samurai de Curitiba

Escrito por

Mylle Pampuch

A história que vou contar é uma entre muitas que se pode contar sobre Claudio Seto. Ele, um ser iluminado, ajudou tantos quanto pôde durante a vida — e continua unindo as pessoas onde quer que esteja. Foi inúmeros em um só, desde o compenetrado bonsaísta até o excêntrico mago; mas nacionalmente é conhecido como o primeiro mangaká (desenhista de quadrinhos em estilo japonês) a publicar mangás no Brasil — antes mesmo de serem publicados títulos japoneses em terras tupiniquins, dizem.

No entanto, em Curitiba, Seto deixou uma marca especial: na cidade em que nasci, ele é lembrado pela alcunha de agitador cultural — mais especificamente de agitador da cultura japonesa.

Claudio Seto (foto de Denise Somera)

Claudio Seto chegou a Curitiba em 17 de julho de 1975, no “dia da neve”. Quase que exatos onze anos antes de eu nascer, Seto desembarcou logo cedo numa cidade em festa, com as famílias brincando em meio aos flocos brancos acumulados nos parabrisas dos carros e nos jardins. As pessoas celebravam, se abraçavam e cumprimentavam umas às outras. Foi nesse clima de festa que ele e Mitsue, sua esposa, se aproximaram de um bar para pedir uma bebida quente. O dono do bar os recebeu de braços abertos, em êxtase por ver a neve pela primeira vez. Seto pediu um Steinhäger; o dono do bar puxou uma garrafa, encheu o copo e lhe entregou uma dose, como que a um amigo de longa data, dizendo que não era preciso pagar.

Ao ser tão bem recebido na cidade em que acabara de chegar, Seto não teve dúvida: acreditou que havia encontrado o “Paraíso na Terra” e escolheu Curitiba como sua nova morada.

O clima hospitaleiro de fato contrastava com o que ele tinha vivido dois anos antes, em meio à ditadura militar. Com o fechamento da editora Edrel, de São Paulo, devido à censura, Seto havia desistido de produzir histórias em quadrinhos e estava em busca de um novo ganha-pão. O que ele não esperava, ao chegar na cidade, é que em breve Curitiba realmente seria um pequeno “Paraíso na Terra” — tanto para Seto quanto para os outros artistas que tiveram a oportunidade de trabalhar na editora Grafipar.

Seto não só não parou de desenhar histórias em quadrinhos como vestiu a camisa de editor e auxiliou muitos artistas dentro e fora da editora. Era Seto quem recebia e acomodava os ilustradores que vinham de outras cidades para trabalhar na Grafipar, como Carlos Magno, Gustavo Machado, Franco de Rosa, Watson Portela e Itamar, formando com eles a Vila dos Quadrinistas, localizada perto da casa de Seto, no bairro São Brás.

Foram quase dez anos de ouro na produção de histórias em quadrinhos. No entanto, com o fechamento da Grafipar, em 1984, Seto se distanciou cada vez mais dos quadrinhos. Seu último trabalho no gênero foi História de Curitiba em quadrinhos, publicado em 1993.

Foi mais ou menos nessa época que, envolvido com as questões políticas da cidade, Seto se transformou em uma ponte entre a comunidade japonesa e o poder público. Foi por causa dele que a Praça do Japão deixou de ser um projeto para se tornar realidade e as festas juninas, que aconteciam dentro do Nikkei Clube, se transformaram nos festivais japoneses Imin Matsuri e Haru Matsuri — que, em poucos anos, se tornariam um símbolo da cultura japonesa em Curitiba.

Em 2006, eu conhecia apenas parte da fama de Seto. Sabia que ele tinha sido um grande quadrinista e que trabalhava no jornal O Estado do Paraná. No entanto, a figura que eu encontraria em breve seria outra; ainda mais esotérica e taciturna do que eu poderia esperar.

Já havia visto Seto em algum matsuri quando liguei para ele pedindo uma entrevista. Na época, eu era uma estudante de jornalismo fazendo um trabalho para a matéria de rádio. Como contumaz admiradora do Japão, convenci meu grupo a utilizar a temática japonesa no trabalho. Assim, elaboramos uma série de programas chamada “Estação Anime” e incluímos a tal entrevista.

Entrevista com Claudio Seto realizada para o programa Estação Anime (clique no player para ouvir)

Encontrei o Seto no estacionamento da PUCPR numa manhã de maio. Lembro-me que o sol começava a criar força quando o vi. Meio sem saber como conversar com um artista que eu admirava, contei que o campus de rádio e TV ficava ali perto, expliquei o caminho e avisei que nos encontraríamos lá. Foi quando ele sugeriu para irmos juntos, no carro dele.

Seu carro era branco (um fiesta?), popular, simples. Sentei-me ao seu lado, no banco de passageiro e, apesar de nervosa (estava ao lado de um grande artista!), a energia ali era boa, tranquilizadora. Em pouco tempo, eu descobriria que essa era a sensação que todos tinham quando Seto estava por perto: uma alegria leve e descontraída, de quem vive com o coração aberto.

Ao fim da entrevista, pedi algo que, segundos depois, descobri que era uma gafe: que Seto desenhasse caricaturas nossas. Mesmo comentando que não fazia mais caricaturas, ele desenhou cada uma de nós — éramos três, no total — em papéis tamanho A6, e nos entregou. Foi a primeira e única vez que pedi caricaturas de graça para um ilustrador.

O que poderia ser um contato pontual tornou-se o início de uma amizade. No mês seguinte, durante o Imin Matsuri, num desses perrengues da vida, pedi ajuda a ele e a Mitsue para vender os botons de anime que eu havia produzido. Mesmo sem saber direito o que eram botons, eles não só expuseram os produtos em sua barraca durante toda a feira, como ficaram vendendo sem me pedir nada em troca.

Sem saber, eu tinha sido acolhida pelo Seto assim como foram tantos artistas antes de mim. E, sendo sincera, eu precisava ser acolhida.

Foi através do Seto que, nos meses seguintes, conheci outras tantas pessoas que fazem parte da minha vida japonesa: Claudia Suemi, Yurie Handa, Maria Helena Uyeda, Yuuichi Oshima, Chuniti Kawamura, Akiyoshi Oeda; todos pedacinhos do zembatsuru que teríamos que construir depois que Seto nos deixasse.

Mas antes que nossa amizade fosse interrompida pela brevidade da vida, participei da organização de vários festivais japoneses, muitas vezes como representante da cultura pop japonesa — uma área bastante defendida por ele. Seto entendia como ninguém que a cultura é uma manifestação popular e, portanto, é mutável. Ele tinha, pela cultura pop, o mesmo respeito que pela cultura tradicional, sendo uma figura apaziguadora de conflitos de geração.

Mesmo que fosse irritado, humilhado ou contrariado, ele possuía sabedoria para manter-se firme e lidar com as adversidades. Lembro-me de uma conversa, no restaurante do hotel Hara, sobre a liberação de verba para pagar os organizadores (no caso, quase todos os nomes que citei acima) do Imin 100, o festival em comemoração ao centenário da imigração japonesa no Brasil, realizado em junho de 2008. Apesar do cabo de guerra e da defesa de que “trabalha-se de graça pela comunidade japonesa”, Seto, mesmo contrariado, não deixou que a irritação o dominasse. 

Em outubro de 2008, um mês antes dele partir, vesti um kimono pela primeira vez e subi ao palco. Quanto mais conhecia sobre o Seto, mais o admirava, então decidi homenageá-lo durante o Haru Matsuri. Apesar da timidez e do receio da exposição excessiva, me coloquei diante de um microfone aberto para o público do festival e li o texto que havia escrito dias antes, falando sobre a trajetória artística do Seto. Ele sorria com o olhar, como se soubesse mais do que todos os presentes.

Homenagem à Claudio Seto no Haru Matsuri de 2008
Da esquerda para a direita: Yurie Handa, Claudio Seto, Suemi Hamasaki e Mylle Silva (foto de Chuniti Kawamura)

No dia 15 de novembro, Claudio Seto sofreu um AVC e nos deixou.

Entrevistei-o em outras ocasiões. Dentre as várias perguntas para a minha monografia sobre festivais japoneses em Curitiba, não resisti em sanar uma curiosidade:

— Seto, por que você desistiu de fazer histórias em quadrinhos?
— Porque não dá dinheiro.

Eis um conselho que não ouvi. Sete anos depois que ele nos deixou, publiquei minha primeira história em quadrinhos, chamada A Samurai. Nela, criei o personagem Mestre Seto, o mentor da protagonista Michiko — uma de tantas demonstrações de que ainda vibra em mim tudo o que aprendi com o Samurai (agitador cultural) de Curitiba.

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