O conto abaixo foi publicado no livro A Sala de Banho (2014). Clique aqui para visitar a página da obra.


Na linha reta não havia mais subliminaridades, era o puro e simples encontro. Percebeu que estava andando em direção e não desviou o caminho. Era um rapaz aparentemente pouco disciplinado, mas com algumas conquistas na vida, como a de ser o melhor funcionário do mês por três vezes consecutivas. Vejamos, calculou sem pressa, não estou apaixonada por ele, mas sou capaz de refazê-lo mentalmente com perfeição. Tem a sobrancelha esquerda falhada quase no final, suas bochechas redondas ficam muito vermelhas quando está ao sol, mesmo não tendo a pele tão clara assim. Suas mãos são um pouco maiores do que as minhas, só que muito mais ásperas, tanto que até me assustei quando ele se encostou ao meu ombro pela primeira vez. As mãos dele sempre me dão um arrepio estranho, como se mesmo o carinho mais intenso não fosse por inteiro.

Enquanto falava, observava os olhos semicerrados do cachorro que lhe lambia a mão com satisfação plena em retribuição aos carinhos que recebia na barriga. O que eu mais gosto nele? Você vai me achar estranha, mas eu adoro aquela voz embriagada que ele tem, é como se estivesse sempre bêbado. O jeito que ele vai ligando as palavras, juntando as sílabas, enrolando a língua. Se eu pudesse, falaria com ele só por telefone, o mais perto possível do ouvido, eu deitada na cama sem mover um dedo, ouvindo-o por horas e horas falar qualquer detalhe sobre seu trabalho e eu absorvendo aquela embriaguez toda, palavra após palavra.

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