O conto abaixo foi publicado no livro A Sala de Banho (2014). Clique aqui para visitar a página da obra.


Ao vê-lo sair do mesmo restaurante em que estava, teve um choque momentâneo: ele com sorvete na mão, cara de criança feliz conversando com alguém que certamente era a sua namorada. O rapaz estava indo para o mesmo lado onde havia aquele carro tão conhecido, guardado na memória: “Deve ser o carro dele”.

Uma sensação de amor puro invadiu-a de imediato e pensou em levantar-se para pegar o caderno que havia esquecido no carro e que continha algumas anotações importantes para a reunião. Todos estavam esperando, olhando para ela com dúvida: “Será que não vai buscar o caderno?”, enquanto conversavam sobre qualquer coisa, mas ela estava observando-o pelo vidro, como se fosse um artigo de vitrine olhando os passantes.

Conheceu-o num susto e nesse mesmo susto ele foi embora. Mais de um ano sem vê-lo e já estava certa de que o amor havia se dissipado. “Coisa passageira”. Mentiras, quantas mentiras contamos a nós mesmos. Mas no instante terrível em que nos vemos sozinhos, sabemos bem quem somos – e aí mora o perigo. O amor que sentia por ele era uma admiração demasiada, um querer largar para o mundo e só conversar de vez em quando, mas em algum momento ele escorreu das suas mãos. Quando foi mesmo? Já não sabia, esses detalhes o amor nunca percebe.

O rapaz, que já estava longe dali, continuava caminhando lentamente em sua mente, retrocedendo como em um vídeo com defeito. Ele ia e voltava para ir mais uma vez, e ela concluiu que o amaria assim pelo resto da vida, não havia muito que fazer. Amores assim refletem em tudo, na vida inteira, não há saída exata, apenas existem, respiram com o ser. Amar – e sem achar maneiras de amar, tipos de amor, intensidades – amar como o sentimento que é e reconhecê-lo simples já é o suficiente.

As pessoas da mesa continuavam pensando se ela ia mesmo pegar o caderno, já passara meia hora e nada de ela levantar. “Será que está passando mal de novo?”, uma amiga de longe, mas a mulher não se movia. Fingia conversar, sorrir, se divertir, planejar com todos, mas lá no fundo estava longe, aquelas imagens indo e voltando, ele feliz andando com um sorvete de creme, conversando com a namorada de sempre e ela dentro da vitrine, assistindo à cena longe de ser o objeto de desejo.

Antes de entrar no restaurante, ao ver aquele carro verde com uns riscos na lateral, já sabia que era ele, mas acreditou que estava vendo coisas, “imagine que absurdo ele aqui depois de tanto tempo”. A verdade é que não foi fruto de sua imaginação, mas sim de algo maior, chamado destino. Ao levantar-se para ir pegar o caderno, concluiu que o amor era um desses devaneios esquisitos que nos acometem e logo vão embora. O carro não estava mais lá, naturalmente ele já tinha ido embora, talvez para deixar a namorada em casa ou para passar mais tempo com ela, quem sabe. Por mais que não esperasse, sabia que deveria esperar um e-mail dele no dia seguinte, ou ainda uma ligação – que raro! – e ouvir sua voz dizendo que ele a viu no dia anterior mas não teve tempo de dizer “oi, quanto tempo, como você está e tudo mais”. Já na hora de ir embora, olhou mais uma vez o espaço no qual o carro verde estava e se perguntou se ele viu o seu carro branco, que deveria ser conhecido dele assim como o carro verde para ela. Dirigiu, voltou para casa, deitou e dormiu. O dia seguinte seria um dia seguinte normal, sem atropelos.

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