O conto abaixo foi publicado no livro A Sala de Banho (2014). Clique aqui para visitar a página da obra.


Estremeceu de leve na primeira troca de olhares, enquanto repunha algumas latas de leite em pó na prateleira. Sabia que ela frequentava o mercado, já a havia visto algumas vezes, mas fora apenas de relance. Estranhou então essa nova sensação por tal moça e supôs que teria alguns problemas a partir de então.

Ela carregava uma cesta com poucas coisas: café, pasta de dentes, iogurte, papel higiênico, arroz e mais alguns doces, talvez. Estava sozinha e ouvia música através do fone de ouvido branco colado em suas orelhas.

Andava bastante devagar, talvez procurasse algo. Estava tão distraída que não notara que era observada pelo repositor de mercadorias. Afastou-se dele lentamente e então foi para o outro corredor, conferiu sua cestinha e foi para o caixa.

Ele era estudante de História, mas precisava de um emprego temporário para juntar algum dinheiro. Ficou com a primeira oportunidade que lhe apareceu em um novo mercado da cidade. Estava lá há cinco meses e mal podia acreditar no que lhe havia acontecido: apaixonara-se por uma completa desconhecida. No início até tentou se convencer do contrário, mas cada vez que a via, um sentimento estremecia-lhe o coração, como um amor leve e descompromissado. Chegou à conclusão de que não seria tão simples assim ignorar o que sentia.

Estava no ponto de ônibus observando o nada como quem espera nada acontecer. Sua mente encontrava-se completamente vazia e seu corpo esgotado, tanto que mal cabia na própria existência. Por sorte não era horário de pico, o que o fez acreditar que teria um lugar para se sentar. Foi num susto que sentiu um perfume doce e olhou para o lado. Lá estava ela com cara de tédio a olhar os carros passando.

Pela primeira vez, teve a permissão de sabê-la tão bem. Era um pouco mais baixa do que ele, tinha os cabelos curtos, a pele levemente morena. Era de uma beleza fraca, como quase a se quebrar, coisa que só com muito amor nos é permitido ver. A eterna espera pelo ônibus transformou-se em sublime contemplação. O jovem passou então a buscar a melhor palavra para pronunciar naquele momento. Permaneceu entalada na própria garganta sem conseguir desfazer o nó que aumentava. Estava constrangido não pela presença da moça, mas por sua própria incapacidade de se comunicar.

O que faz uma pessoa com um sentimento único? Longe das imaturidades, dos amores fugazes da adolescência, ele admirava a imagem da moça. Não queria saber nada sobre ela, bastava que conversassem sobre como os preços das mercadorias estavam subindo e tudo ficaria bem – ao menos naquele instante.

Quando os carros pararam de passar e nem mesmo uma mosca zumbia em seus ouvidos, aquelas duas pessoas no ponto de ônibus assumiram efetivamente a presença um do outro. Até então, ele a via como uma assombração intocável, e ela, por sua vez, fingia estar sozinha, como uma boa curitibana deve agir.

– O silêncio me incomoda. Logo hoje que a bateria do meu MP3 player acabou, meu ônibus está demorando mais do que o normal para chegar.

– Não se preocupe, os carros logo voltarão a passar.

– E isso fará com que o ônibus chegue?

– Não, mas trará o barulho de volta.

– Acho que deve ter quebrado.

– O quê? O barulho?

– Não! O ônibus.

– Para mim, ele está dentro do horário.

– Já estou aqui há mais de meia hora, nunca atrasou tanto.

– É, talvez eu esteja aqui há tanto tempo quanto você.

– O pior é que só há um ônibus que vai para onde quero.

– É, aí fica difícil mesmo…

– Para onde você vai? – por mais que tenha evitado, não resistiu em fazer uma pergunta pessoal.

– Pro bairro Uberaba. E você?

– Moro no Rebouças. Se fosse mais perto, poderíamos rachar um táxi.

– É, pois é…

– Chegou o meu ônibus! Tchau. – o rapaz aceitou o sinal do destino e foi embora, mesmo que com certa melancolia por deixá-la ali.

Fez-se então um buraco no ponto de ônibus, como se algum pedaço importante tivesse sido arrancado dali. A moça, que se chamava Ana, pensava, pensava, mas não sabia dizer ao certo o que diabos estava faltando. Sentia apenas uma forte sensação de vazio, o indecifrável vazio.

Ana viu o ônibus se aproximando e acreditou que tudo estava resolvido. Pegou sua sacola retornável e subiu os degraus da condução. Pagou a passagem com o cartão, que já estava úmido em sua mão, e sentou-se. Assistiu à brisa com tranquilidade, protegida pelas janelas. Passou assim alguns momentos de certeza em sua vida: encaminhava-se para algum lugar.

Não estudava, mas queria. Pode-se dizer que tinha 25 anos de idade. Trabalhava com telemarketing até metade da tarde e depois tinha o tempo todo livre para fazer o que bem entendesse. O problema era exatamente esse.

O tempo não era bom com Ana. Ela não se atrasava nunca, muito menos largava o relógio. Era tão dependente dos ponteiros que, quando se via livre, só desejava que as horas se engolissem uma atrás da outra. Tentou várias vezes trabalhar mais tempo, no entanto era ameaçada de perder o emprego caso alguém descobrisse e reclamasse.

Já os estudos eram outro caso sério. Ela tentava todo ano o vestibular para cursos diferentes: matemática, serviço social, veterinária, filosofia… Era como se a cada ano ela fechasse os olhos e apontasse um nome na lista de opções. Nunca passava, mas nunca desistia. A questão era apenas fazer, não importava o que.

Morava sozinha e, ao chegar em casa, seguia rigorosamente seu cronograma. Apesar de não sentir a mesma satisfação de quando cumpria os horários no trabalho, ela não conseguia se livrar dessa mania. Isso não queria dizer que Ana conseguisse manter seu pequeno apartamento em ordem. Seu espaço era naturalmente desorganizado.

Em seu cronograma havia o horário exato de molhar as plantas, cozinhar e comer – mesmo sem fome – ler dez páginas de um livro, recolher o lixo, alimentar o peixe, ver novela e outras atividades milimetricamente cronometradas. Certa vez, tentara programar os horários de suas idas ao banheiro, mas não conseguira resultados satisfatórios. Se conformou então, depois de algum tempo, a deixar um espaço em seu cronograma para o que passou a chamar, depois de certa relutância, de imprevisto.

O problema estava mesmo na hora de dormir. Deitar-se e esperar a chegada do sono se tornava um martírio, já que não era tão simples assim dormir. Já adiantara e atrasara seu cronograma diário, mas o momento de esvaziar a cabeça e descansar a perturbava.

Ana terminou o cronograma do dia seguinte, apagou a luz e foi se deitar. Como de costume, o cansaço brigava com a liberdade de pensamento, passeando assim pelas entranhas do seu dia. As palavras ditas começavam a ecoar em seus ouvidos e, ordenadamente, ela revivia alguns fatos recentes. A moça não sentia o menor prazer nesse tipo de reflexão, mas não conseguia evitá-lo: fazia-se necessário, afinal, que se deixasse levar por pensamentos de vez em quando. Foi então que aconteceu.

Ocorreu-lhe um brutal silêncio dentro e fora da cabeça. Sem mais nem menos, ela esqueceu completamente como foi o seu dia e se deparou com o vazio. Sentia uma falta imensa de algo, de um detalhe que apagara brutalmente da memória. E pior: a partir desse ponto não conseguia nem voltar ou muito menos seguir adiante em suas lembranças.

Tentou pensar em algo, qualquer coisa. Pensou em uma maçã, uma linda maçã vermelha. A fruta na árvore – mesmo sem nunca ter visto tal fruta na árvore – e depois a assistiu cair delicadamente no chão após rodopiar algumas vezes no ar. Foi assim que se acalmou e tentou voltar à sua retrospectiva particular, mas não obteve sucesso. O vazio estava todo ali, vinha e mordia a maçã, acabava com a cena. Nessas horas ela já quase dormia, quase dormia…

Mesmo entorpecida pelo sono, chegou à conclusão de que sentia falta de algo. Perdera uma parte importante como quem perde um dente e só lhe resta um espaço vazio na boca, o qual, ao sabor da língua, parece maior do que realmente é. E nesse estado de pensamento sem pensamento, Ana dormiu um dos melhores sonos das últimas semanas.

Acordou concluindo que sonhara, com aquela incrível impressão de que estivera com alguém importante em algum lugar bem longe daquele quarto. A sensação não se livrava dela a ponto de fazê-la tentar dormir para recuperar o sonho. Não, ele nunca voltaria, por maior que fosse seu esforço, por mais que se concentrasse. Conformou-se em definitivamente abrir os olhos para encarar as paredes de sua vida real. Percebeu, então, que estava muito atrasada.

A sensação mágica do sonho abandonou-a imediatamente. Agora congelada, viu-se em um estar sem saída jamais antes experimentado. O que faria ela agora da vida? Sentia-se como se tivesse perdido o pequeno espaço que lhe fora reservado no mundo. Uma quebra tão grande do cronograma era sinônimo de fracasso.

Levantou-se e decidiu que era o dia de fazer nada. Logo resolveu que sairia para caminhar o mais longe possível. Sem uma rota definida, ela se deixaria perseguir pelos próprios passos, como quem busca algo importante e desconhecido.

Seus passos eram passos, nada mais que isso. Andava tranquila e, ao contrário do que imaginara, ficava cada vez mais cheia de si. Logo notou que caminhar de tal maneira era uma delicada forma de se amar. O vento brincava de leve com seus cabelos e por vezes arrepiava-lhe os pensamentos.

Cansou-se e sentiu sede, então descobriu que chegava o momento de parar um pouco. A moça estava feliz, tinha toda ela dentro do corpo, mas havia um problema: faltava algo. No início acreditou ser um algo banal, no entanto a falta cresceu de tal maneira que era impossível ignorá-la. Sentada na grama, chegou à conclusão de que perdera um elo, um instante qualquer e sem importância.

Ao ter consciência de que estava perdida alguma parte, sabia que o melhor a fazer seria voltar para casa. Mas havia o problema de estar longe e ou de simplesmente achar que ainda não era o momento de voltar. Pegou, enfim, o primeiro ônibus que encontrou no caminho.

Não demorou muito para notar que pegara o mesmo ônibus com o qual ia trabalhar. Talvez por instinto sua caminhada tenha seguido o mesmo percurso da condução. Ana achou graça de si, a graça mais gostosa de sentir: a de reconhecer-se bobo.

Passou pelo mercado e decidiu descer. Sentia fome e sabia que ali serviam um ótimo almoço, o qual nunca tivera a chance de experimentar. Desceu logo que conseguiu e foi direto para os fundos do mercado. Estava divertida com seus próprios impulsos, pelo simples fato de fazer algo diferente.

O rapaz, cujo nome era Francisco, viu a moça e se assustou. Ela, que passara como um vento por ele, não costumava ir ao mercado naquele horário. Tamanha foi sua curiosidade que decidiu segui-la sem pensar em mais nada.

Ela parou na fila à espera de sua marmita e, sem mais nem menos, virou-se, flagrando o rapaz a observá-la. Fez-se então o silêncio.

O silêncio é a grande arma dos homens. Sem uma palavra sequer, revelamos todas as cartas da mesa, soltamos os segredos de nossas mentes. O silêncio é o momento dos grandes, a mácula imaculada dos amantes, o silêncio que atinge a alma e cala os pensamentos.

Ana entendeu muito bem: estava viva mesmo sem poder ouvir nada. Logo ela que precisava tanto de barulhos para preencher-se, logo ela! Desde quando, perguntava-se, desde quando percebera naquele rapaz um pedaço de si? Mas o silêncio não dava respostas e ela pouco se importava.

Francisco, por sua vez, foi notado como quem realmente era. Percebeu que a máscara de simples repositor de mercadorias havia caído. Não existiria mentira mais para consigo mesmo. Em uma fração de segundo, o rapaz foi descoberto.

Silêncio. No silêncio, ela saiu da fila da marmita e se aproximou dele. Em silêncio continuou a flagrá-lo dos pés à cabeça. Sem perceber, eles criaram as próprias regras, então não havia necessidade de se justificar. A primeira palavra que trocaram então ninguém nunca ouviu. Malmente sabe-se quem foi o primeiro a falar. Os que estavam presentes apenas contam que Ana e Francisco saíram do mercado e caminharam despreocupadamente até o fim do dia.

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