Assim que entro, deparo-me com dezenas de cadeiras brancas espalhadas no salão de festas do Nikkei Clube (aquele mesmo onde descobri para que raios servia um retorno no palco). Enfileiradas, como ficariam até o final da apresentação, ainda à espera de seus visitantes. Em breve, as mulheres começariam a fritar pastéis e os homens beberiam cerveja, tudo vendido ali, nos fundos do salão.

Os japoneses viralizam cada vez que se unem para realizar uma limpeza. Em estádios, em escolas ou onde quer que estejam, eles não deixam um rastro de lixo sequer para trás e se tornam exemplos de asseio e união. Eu duvidaria dessa magia caso não a tivesse visto logo no início da minha vida japônica.

As apresentações culturais costumam durar cinco, seis horas. Assim como nos matsuri, tais apresentações e eventos estão relacionados à alguma entidade (karaokê, beisebol, taikô, etc) e as pessoas que fazem parte desses clubes dentro do clube e partilham dos mesmos interesses acabam trabalhando mais do que os outros – mas é importante dizer que eles não são os únicos que trabalham.

Todos, de alguma forma, são responsáveis pelo que é oferecido.

Na cultura japonesa, há um conceito chamado tatemae, que significa “ninguém é melhor do que ninguém” – deixando, assim, todos no mesmo patamar. Logo, todos se colocam à disposição para contribuir pelo coletivo. Talvez você esteja pensando que é utópico demais para ser verdade (eu mesma concordaria se não tivesse visto), mas eu vi acontecer tantas e variadas vezes que não tive escolha além de aceitar que existem comunidades de pessoas que cuidam umas das outras – e que, muitas vezes, esse cuidado é parte da índole da pessoa e não só direcionado a um determinado grupo.

Mas voltemos às cadeiras.

Findas as apresentações e agradecimentos, chega a hora de arrumar o salão. No entanto, como você já deve estar prevendo, ao invés de surgir “o pessoal da limpeza”, quem começa a arrumar é o próprio público que ocupava as cadeiras. Como se tivesse sido combinado, todos se levantam e começam a empilhar as cadeiras – exceto eu, ilhada entre o espanto e o afastamento. Eu, que me via como uma estrangeira em qualquer lugar, não tive reação. Apesar do ato de organizar os espólios da festa não me pertencer, eu poderia fazer parte.

Além do tatemae, os japoneses cultivam e incentivam os hábitos da limpeza e da organização desde muito cedo. Apesar de alguns japoneses serem taxados de acumuladores (ora, ninguém é perfeito, afinal), o mais comum é ver pais e filhos dividindo, desde a primeira infância, pequenas tarefas diárias, como separar o lixo, limpar o chão, lavar a louça, etc. Nada que não aconteça em famílias brasileiras, você deve pensar. A diferença, no entanto, está na visão de que tais tarefas de limpeza e organização não dependem de um elemento externo (como empregadas domésticas, por exemplo), mas sim do trabalho de cada membro da família – ou da comunidade.

Já citei algumas pessoas que me ajudaram muito aqui no Japão do outro lado. A lógica é a mesma: assim como empilhar as cadeiras depois da apresentação contribui para a manutenção do espaço, ajudar as pessoas que fazem parte da comunidade contribui para a manutenção dos laços criados. Criam-se, assim, pequenos portos-seguros de relacionamentos com pessoas em quem se pode confiar.

É claro que nada é tão preto no branco assim. Que sim, existem pessoas de má índole em todos os lugares. Mas o meu saldo segue positivo porque, além da companhia de pessoas boas, eu aprendi a ajudar e ser ajudada com mais naturalidade.

Plac! Plac! Plac! Ouço as cadeiras se chocando ao serem transformadas em pilhas; barulhos descoordenados indicam a velocidade do trabalho: em menos de três minutos, as cerca de 200 cadeiras já estavam guardadas. Devo ter contribuído com duas, talvez três.

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