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era um bêbado que não se cabia no espaço

Escrito por

Mylle Pampuch

Era um bêbado que não se cabia no espaço. Tem aqueles que ficam amuados nos cantos, cabisbaixos, lamuriando aos pouquinhos. Ele não. Sua chegada era um bater de portas sapatos na escada sacolas e blusas farfalhando madeira reclamando na parede som alto canto CANTO! Deve ser porque, quando são, modificava cada palmo de terra pisada, cada pessoa com quem ele falava. Era um bater de coração assim abrupto cada vez que eu tocava a sua pele. Um vício, precisava daquilo para ser dia. Deve ser por isso que muitos passaram pela sua vida: ele era um explodir. Peça menos e ele será nada. Conheço a dúbia sensação de cada pessoa que o viu partir, como quem vê se afastar um geiser produzido por um vulcão prestes a entrar em erupção. Um último olhar de carinho mesclado com reprovação; quem sabe despeito — despeito por si mesmo travestido de despeito pelo outro. São era essa fonte a escaldar desavenças; bastava que me abraçasse para derreter minha couraça. Mas, assim como eu, ele não fazia nada do que eu pedia. Fazia depois, no seu tempo-humor, quando o jorrar das águas aquecia seu coração e brotava em sorriso. São era um introspecto extrovertido capaz de desabrochar desde a mais escrachada piada até a mais elaborada reflexão — muitas vezes uma atrás da outra. No entanto, nos dias mais apertados, ele necessitava se desabotoar. Bêbado, despia-se dos limites do espaço: tudo era seu corpo e o que estivesse no caminho que se danasse. Tocá-lo nessas horas era bom, mas sua montanha-russa de estímulos me fazia afastar: ele era a definição carnal de curva dramática. Ele era todos e era ninguém naquele emaranhado de narrativas épicas que saiam da sua boca enquanto se descabia. Desejos vomitados sem filtro, do amor ao escárnio, dançavam em forma de som pelas paredes do quarto até dormir. Deitado na cama, seu corpo se debatia deveras, como se fosse grande demais para se deixar caber em sonhos; fazia barulhos guturais, respirava estranho. De tão pesado, vez ou outra parecia que ia sumir, engolido pelas cobertas. Mas, as primeiras horas passadas, ele se reentenderia; por isso valia a pena esperar. No primeiro olhar trocado pela manhã, acordaria inocência e eu saberia que ele tinha voltado. Iluminaria-me de novo, numa cumplicidade miúda de quem se identifica; com o coração suspenso, desejaria niná-lo só para vê-lo acordar outra vez.

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