Eu e a matemática somos boas amigas. É raro me perder com os números, fator crucial para minhas escolhas próximas e futuras. Mas nenhum cálculo rápido seria capaz de acalmar as aglomerações de pessoas com uma causa em comum: matar a fome de comida japonesa.

Um dos primeiros passos para conviver com a comunidade japonesa é entender a hierarquia vigente. O Nikkei Curitiba é uma entidade (a escolha da palavra “entidade” não é minha, mas dos membros) com vários braços ou departamentos. Cada uma dessas pequenas organizações recebem algo da grande – quase sempre espaço e respaldo – e, em algum momento, precisam retribuir pelo favor.

Esse momento é o matsuri – os festivais japoneses.

No Japão, os matsuri são festividades tradicionais e possuem várias temáticas

– agradecimentos ou pedidos aos deuses, chegada da estação, fertilidade, etc). A versão curitibana dos festivais começou dentro do clube Nikkei em 1992 quando Claudio Seto (guarde esse nome) decidiu transformar as festas juninas em comemorações à imigração japonesa; dando vida, assim, ao Imin Matsuri.

A ideia deu tão certo que Seto logo tirou outra festança do seu chapéu de bruxo: o Haru Matsuri, festival que comemora a chegada da primavera.

Desde então, todos os anos acontecem pelo menos duas festas japonesas em Curitiba.

Com o tempo, o público foi crescendo e o clube Nikkei, cada vez mais apertado. A única saída foi transferir os eventos para um local público: a Praça do Japão, o ponto turístico mais japonês que você encontraria por aqui.

Assim, chegamos em 2004 e eu estou prestes a colocar a mão na massa para retribuir a cessão do espaço para as reuniões do nosso clubinho japonês. E, apesar do restante dos membros estarem fazendo karintô (uma massinha agridoce frita, cheia de gergelim preto) para vender na barraca da Danke durante o festival, a minha função era outra:

Ficar no caixa central do festival.

(Era mais fácil do que cozinhar, afinal)

Nos matsuri há uma moeda corrente, o Imin. Todas as barraquinhas de comida japonesa – cerca de 20, na época – só aceitam essa moeda. E é no caixa central que os visitantes vão trocar seus dinheiros do mundo real por dinheiros “japoneses”.

Aglomerações nunca foram a minha especialidade, mesmo quando tinha sede de mundo. Até hoje, lidar com pessoas é, no mínimo, desafiador. Na época era um terror sub-humano que me dava vontade de fugir para o topo do Monte Fuji e me isolar dentro do vulcão adormecido.

Mas eu e o mundo estaríamos separados por um balcão – e, acredite, um balcão pode ser bem protetor.

Além disso, eu tinha um incentivo a mais: um coração retardado.

As pessoas, como você já deve ter percebido, têm fome de pratos específicos. Quase ninguém chega e diz “quero trocar R$50”, mas sim “quero 3 yakissobas, 2 refris e 1 cerveja”. Os clientes querem que a pessoa do caixa central saiba o preço de todos os pratos das 20 barracas, façam as contas e já encaminhem o pedido, se possível.

Sem que eu suspeitasse, ficar no caixa central foi o meu batismo de fogo nesta que seria a primeira de inúmeras vezes que eu trabalharia em uma feira. Tudo o que eu precisava estava ali: as pessoas, as contas, as vendas, os trocos. Era como se o destino, esse espertalhão irônico, me dissesse “aprende logo porque você vai precisar”.

Depois de dois dias de trabalho das dez às dez, confundir alguns trocos e ficar sem voz, é normal fazer algumas escolhas erradas. Por volta das duas da tarde de domingo, um quase-namorado me tirou do caixa central com a desculpa de que eu precisava almoçar e, ao som de um bon odori qualquer, debaixo de uma cerejeira, recebi meu primeiro beijo.

Demoraria três meses para perceber o erro que tinha cometido: embalada pelo cenário, aceitei um pedido de namoro que não queria.

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