O conto abaixo foi publicado no livro A Sala de Banho (2014). Clique aqui para visitar a página da obra.


Foi um homem tão bom que morreu em silêncio. Quando percebi que o que havia no meu colo era um corpo imóvel e sem sinais de vida, pensei que aquele era o além-homem e que, a essas horas, deveria saber muito mais do eu que porque já não precisava saber de mais nada. Morto e entregue nos meus braços, como um saco de carne, parecia estar bem mais confortável que antes.

No dia seguinte fui ao velório – e todos os velórios são iguais. Posso dizer que esse é o dia em que mais nos importamos com a pessoa como ela é, um monte de massa parada dentro de uma caixa, frio e sem cor. Nós vivos choramos, exageramos e relembramos o que era aquilo que se mexia, principalmente em um velório cheio de gente fingida e interesseira como aquele: os feitos daquele ex-homem ficaram escritos nas maquiagens borradas das mulheres.

Nos dias em que aquele monte de carne ainda se mexia, ninguém o ouvia de fato. Um grande empresário, um homem de visão, um chefe, patrão, rico, inteligente, bem casado, de poses, aposentadoria garantida, família linda, incrível. Os funcionários recebiam as ordens do homem que, para eles, não passava de um meio para conseguir dinheiro – ou o homem que impedia que mais dinheiro entrasse na conta dos funcionários.

Quando estava indo embora daquela encenação, encontrei-me com ela, que aproveitou para perguntar como eu estava. Fingi que não estava muito bem, mesmo no fundo sentindo uma ponta de felicidade mórbida por uma morte tão simples e indolor. Comentou que não poderíamos nos encontrar por enquanto e eu aceitei, como um cachorro vendo frangos rodando numa padaria de esquina. A mulher se afastou e eu guardei minha risada para depois do portão da igreja.

As coisas são simples: o homem queria morrer e morreu. Muito esperto da parte dele tomar tal decisão, afinal, ele não tinha mais nada de interessante para fazer por aqui. Era muito bondoso, um coração de ouro, mas viver cansa, eu sei que cansa. Acordar todos os dias depois de sonhos maravilhosos dos quais nunca mais nos lembraremos ao certo cria certas mágoas. Eu, por exemplo, tenho minhas dúvidas sobre o que acontece comigo enquanto estou dormindo.

O homem morto e eu amando aquela mulher. Amando de verdade, quero pedi-la em casamento assim que ela disser que sim. Somos amantes, mas, por algum motivo, estou cansado da mesmice de amante e pretendo promovê-la a minha esposa. Aos meus olhos, tão linda, ela, casada e tão inatingível, como uma princesa presa numa torre em busca de um príncipe encantando. Pra falar a verdade, eu nunca fiz o tipo de príncipe, isso é coisa do morto, ele sim era um cara bonito, até eu o achava.

Sentei-me no sofá, liguei a televisão e comecei a pensar em como aquele homem tão bom morreu de uma maneira tão estranha na minha frente – e em como eu contei isso aos médicos. Disse que morreu e pronto, porque morte é morte em qualquer lugar, não importa como aconteceu, não é mesmo? O diagnóstico, essas coisas técnicas, eles que façam e descubram como o homem morreu. Apenas nessas horas que se importam verdadeiramente com o corpo, com esse monte de sei lá o que, que aprendemos na escola e esquecemos imediatamente. Quando o interfone tocou, eu sabia que era ela, só podia ser. Abri sem olhar antes, o perfume invadiu minhas narinas e arrepiou minha espinha. Foi logo entrando, jogou a bolsa no sofá, eu tranquei a porta e a olhei: nunca estive tão perto de uma besteira. Pegou o controle e sentou-se, fui à cozinha pegar qualquer porcaria enquanto conversávamos. Um cotidiano, qualquer momento corriqueiro, o tempo foi passando, as luzes se apagando e eu abraçado no monte de carne que ainda pulsava, ainda pulsava.

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