Hoje, 20 de setembro de 2020, terminei de escrever o roteiro da minha próxima história em quadrinhos, chamada Entre os Atos de Sidéria.

O projeto, que comecei em 2018 depois que o @menin me apresentou a história de Léo Kessler, foi aprovado no edital de Quadrinhos da Fundação Cultural de Curitiba e será desenhado pela @mamatiazi.

Agora que terminei o roteiro, decidi registrar o processo criativo que atravessei para construir a história.

Sidéria foi a primeira ópera do Paraná, escrita e apresentada com o esforço de três pessoas: Augusto Stresser, Jayme Ballão e Léo Kessler. Estreou em 03 de maio de 1912, deixando marcas na cultura da cidade e abrindo um precedente para a produção artística local.

No entanto, apesar da importância, o feito teve pouquíssimo reconhecimento fora do Paraná. Exceto por algumas notícias na época da estréia, Sidéria foi uma apresentação local e isolada. 

Depois de uma extensa pesquisa histórica e muita reflexão, acreditei que estava pronta para contar a história do nascimento da ópera, que começaria pelo desejo de Augusto Stresser em escrevê-la, passando pelo trabalho de Jayme Ballão como libretista e chegando à Léo Kessler, um maestro suíço que se viu obrigado a ficar em Curitiba depois que a companhia de teatro alemã que o trouxe até aqui se desfez.

Esboço do personagem Augusto Stresser, desenhado pela ilustradora da HQ, Má Matiazi
Esboço do personagem Augusto Stresser, desenhado pela ilustradora da HQ, Má Matiazi

A ópera Sidéria tem como pano de fundo o Cerco da Lapa, período histórico no qual maragatos (monarquistas) tomam a cidade da Lapa, localizada 62 km a oeste de Curitiba, para poderem seguir viagem rumo ao Rio de Janeiro, capital do Brasil, e devolver o poder à monarquia.

Portanto, desde o início eu sabia que minha história em quadrinhos teria várias camadas temporais.

Comecei a escrever um primeiro argumento linear, com todas as cenas que havia imaginado. A medida que colocava as ideias no papel, porém, ficava cada vez mais claro que a história estava chata, igual a essas histórias cheias de didatismo que eu odeio. Minha intenção era contar algo que aconteceu no passado e não ensinar quem foram aquelas pessoas e o quanto elas foram importantes.

Foi assim que percebi algo crucial: que a personagem principal da minha história era a ópera. Era ela que estava presente em todas as cenas. Portanto foi natural me fazer a seguinte pergunta:

O que aconteceu no dia da estréia da ópera Sidéria?

A partir de então, comecei a escrever um segundo argumento, só que para uma história em quadrinhos não linear. Passei a trabalhar não apenas as cenas em si, mas também como elas conversavam umas com as outras, um jogo de causa e consequência em que o caos da vida ditava as respostas.

Terminei o segundo argumento em abril e o deixei de lado. E foi a melhor coisa que eu fiz.

Esboço do personagem Jayme Ballão, desenhado pela ilustradora da HQ, Má Matiazi
Esboço do personagem Jayme Ballão, desenhado pela ilustradora da HQ, Má Matiazi

Em abril, no início da quarentena, eu estava começando a entrar em contato com uma outra Mylle, uma que tinha a permissão de ficar em casa o quanto quisesse para ler, escrever e trabalhar no tempo dela. 

Pode parecer besteira, mas sempre me culpei por não ser uma pessoa mais expansiva, mais sociável. A quarentena me deu carta branca para ser quem eu sempre quis ser. O lado ruim (há sempre um lado ruim) é que não havia como escapar do clima de incerteza no ar. 

Somado a isso, minha cachorrinha, a Luna, estava muito, muito doente. Não era raro ela passar dia e noite tossindo e a tensão dentro de mim aumentava. Com a sua partida, foi a primeira vez que vivenciei o luto e o vazio que ele causa. Apesar de ser apenas um pequeno ser, ela me ensinou muito sobre amor, companheirismo e me deu forças para viver por muitos anos. Só quem teve um animalzinho e acompanhou sua vida inteira sabe do que estou falando.

Completei 34 anos duas semanas depois da Luna ter me deixado. Sabia que precisava não só começar a escrever o roteiro, mas me transformar. Decidi que era chegada a hora de ter uma disciplina de escrita mais estrita. Depois de 14 anos trocando parte do dia pela noite, comecei a acordar entre 7h e 8h da manhã todos os dias para escrever.

Também cortei o cabelo, sozinha. Se não me transformasse por completo, de fora pra dentro, explodiria.

No final, ninguém sabe o que se passa dentro da gente. Ninguém sabe a explosão de sentimentos que é ser quem se é.

Esboço do personagem Léo Kessler, desenhado pela ilustradora da HQ, Má Matiazi
Esboço do personagem Léo Kessler, desenhado pela ilustradora da HQ, Má Matiazi

Comecei a escrever o roteiro no dia 20 de julho. Das 80 páginas que havia me proposto a produzir, eu apenas tinha três, ainda escritas durante o primeiro argumento. Tinha uma longa caminhada pela frente, uma caminhada na qual eu reviraria não só jornais e fotos antigos, mas meus próprios sentimentos ao me colocar no lugar das pessoas sobre as quais eu escrevia.

Quando dei por mim, eu não estava escrevendo uma HQ sobre a montagem da ópera Sidéria. Eu estava escrevendo uma história sobre as circunstâncias que nos levam a produzir arte e qual o real valor disso ante a finitude da vida.

Eu fui cada uma das quase 120 pessoas que em 1912 decidiram trabalhar, juntas, para montar uma ópera. Cada uma com suas explosões, seus universos particulares. Eu fui cada espectador que sentou naquela platéia e viu a apresentação acontecer diante dos olhos sem ter a mínima noção do que cada um dos envolvidos enfrentou, sonhou e abriu mão para estar ali.

Essa é a beleza da arte: nos tirar do momento mundano para nos transportar, mesmo que por um breve momento, a outra realidade.

E o que a arte deu em troca à todos os envolvidos na montagem da ópera Sidéria? Será que o que ela deu fez valer a pena o que cada um deles abriu mão? Será que correspondeu aos seus sonhos, suas expectativas? Será que foi à altura de suas experiências?

A minha resposta para essas perguntas foi dar o melhor de mim ao contar essa história. Foi  honrar o esforço deles e de todos os artistas que vieram antes de mim ao seguir em frente escrevendo cada dia mais.

Eu não escolhi escrever essa história, foi ela que me escolheu. E eu não poderia ter escrito ela em nenhum outro momento da minha vida. 

Terminei o roteiro em dois meses. Caí em lágrimas logo depois que digitei a palavra FIM. Ainda não sei o significado do que escrevi.

Esboço do personagem Marietta Bezerra, desenhada pela ilustradora da HQ, Má Matiazi
Esboço do personagem Marietta Bezerra, desenhada pela ilustradora da HQ, Má Matiazi

A HQ Entre os Atos de Sidéria está em produção e é baseada na história real da composição e montagem da primeira ópera paranaense. O roteiro e a coordenação do projeto são de Mylle Silva e as quadrinização é de Má Matiazi.

PROJETO REALIZADO COM RECURSOS DO PROGRAMA DE APOIO E INCENTIVO A CULTURA,  FUNDAÇÃO CULTURAL DE CURITIBA E PREFEITURA MUNICIPAL DE CURITIBA.


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