Numa manhã qualquer de junho, o céu tornou-se negro e ficamos todos assustados dentro da sala de aula: o fim do mundo estava chegando. O ano era 1999 e a profecia de Nostradamus, no imaginário de adolescentes, frutificava. Mas, ao que tudo indica, hoje (quase) não vivemos em uma realidade paralela e estamos todos bem.

Enfrentamos outros desafios, é claro. O bug do milênio, que impediria os computadores de virar o século, era uma ameaça bem mais real para mim do que o fim do mundo. O que seriam das aulas de informática, minhas favoritas, no ano seguinte?

Mas, entre o fim do mundo e o bug do milênio, surge uma luz no fundo da telinha: o animê Pokémon começou a ser exibido em TV aberta. Do dia para a noite, deixei de integrar o seleto grupo de pessoas que viam “aqueles desenhos de olhos grandes” para fazer parte da sociedade.

Eles estavam em todos os lugares: figurinhas de chicletes, cards, brindes em salgadinhos, lembrancinhas de aniversário. Enquanto a internet engatinhava, a maioria dos fãs capturava seus pokémons com a imaginação.

(Os mais afortunados tinham Game Boys, videogames portáteis para reunir suas criaturas.)

O século virou e o mundo seguiu. No ano 2000 eu vi algo na banca de revistas que encheu meus olhos e esvaziou meu estômago: uma história em quadrinhos das Guerreiras Mágicas de Rayearth. A partir de então, passei a guardar o dinheiro do meu lanche diário – exatos R$2, com os quais eu comprava um salgado, um refri e, às vezes, sobrava troco – para comprar minha primeira coleção de histórias.

Claro que, naquela época, eu não fazia ideia de que as histórias em quadrinhos davam origem às animações e nem que se chamavam mangá. Eu apenas lia, vivenciava a narrativa e procurava imagens legais no Cadê, buscador brasileiro pré-Google.

Nos anos seguintes, já com o Cartoon Network ao alcance do controle remoto, passei a conhecer outros animês: Dragon Ball, Cavaleiros do Zodíaco e, meu preferido, Sakura Card Captor. Da mesma forma, gravava-a em minha memória e revivia aquela história dia após dia em meu imaginário.

Minha adolescência, por assim dizer, foi repleta de magia.

Já nessa época, me vi dividindo o tempo da mesma forma que faço até hoje: entre a literatura e as histórias em quadrinhos. Dividi minha paixão entre Sakura e Capitu; entre Serena e Catherine. Como a dualidade que causa equilíbrio, desde muito cedo era como se o oriente e o ocidente vivessem dentro de mim.

Creio que todos têm balanças de dualidades dentro de si, que hora pendem mais para um lado, hora para outro. E, como na adolescência estamos em busca na nossa identidade e queremos fazer parte de algum grupo, ficou mais fácil pender para o lado oriental.

Eu tinha colegas para conversar que assistiam aos mesmos desenhos, mas ninguém era tão assíduo em suas visitas à biblioteca quanto eu. Depois de buscar, sem sucesso, pessoas da minha idade apaixonadas por Dom Casmurro ou O Morro dos Ventos Uivantes, escolhi ficar com Pokémon mesmo.

Sem dúvida sou um fruto da minha época. Sem o sucesso de Pokémon ou Sakura Card Captor, é bem provável que minha paixão pelo Japão não tivesse passado de uma fase de criança. Não vejo minha imersão japonesa como uma escolha, já que escolhas são conscientes, mas como um caminho a seguir. Um caminho que se abriu, como uma flor, e me engoliu com sua beleza. Enquanto desfrutava os dias despreocupados em frente à TV com minhas heroínas preferidas, eu mal sabia que, em menos de uma década adiante, atravessaria o mundo duas vezes e vivenciaria no mundo real tudo o que buscava nos animês e mangás. Mas essa é uma outra história, para o futuro.

Categories: Crônicas

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