Música sempre foi uma das bases da minha vida. Tal qual um tripé, sou perseguida e persigo a escrita, a cultura japonesa e a música, misturando os três elementos com frequência. 

Ao lado do monitor, vejo minha coleção de CDs japoneses – muitos deles comprados em sebos e preservados na embalagem – e logo concluo que, depois dos animes, foi a música que me impulsionou a seguir em direção ao sol nascente.

O amor pela música, como todo amor, começou platônico. Meu desejo de aprender a tocar piano surgiu a partir do momento que eu descobri que se podia aprender a tocar aquela coisa. Sem nenhum piano por perto, só entendi que era possível tocá-lo depois de ver a série Chiquinha Gonzaga, exibida em 1999. 

Fiquei louca. Eu queria ser aquela mulher (não a Regina Duarte, claro, a Chiquinha Gonzaga mesmo). Em pouco tempo, vendi meu Super Nintendo, juntei mais algum dinheiro e me tornei a orgulhosa proprietária de um teclado Casio (modelo CTK-100?) e de algumas revistas ao bom e velho estilo “cole adesivos coloridos nas teclas e aprenda a tocar teclado agora mesmo!”.

Não demorou muito até que eu percebesse que meu sonho de ser Chiquinha Gonzaga daria mais trabalho do que eu esperava.

Carreguei a música ao longo dos anos, com aulas esporádicas aqui e acolá, até descobrir que no Japão do outro lado, dentro do clube Nikkei Curitiba, havia um concurso de karaokê de música japonesa.

(Depois de desistir de ser Chiquinha Gonzaga, decidi que seria cantora. Uma cantora qualquer, tipo Elis Regina).

Karaokê é uma palavra japonesa, derivada da aglutinação dos termos kara (空 vazia) e ōkesutora (オーケストラ orquestra). Foi criado em 1971 por Daisuke Inoue, esperto inventor dos primeiros 11 aparelhos de karaokê do mundo, mas pouco inteligente para registrá-los, sendo copiado pela indústria de entretenimento sem ganhar um tostão sequer pela sua invenção.

Uma febre no Japão replicada por todos os lados, o karaokê dá a todos aqueles 5 minutos de fama com microfone na mão, sem depender de banda alguma para acompanhar. Não à toa, a invenção ganhou o Prêmio Ignóbil da paz por proporcionar uma nova maneira das pessoas aprenderem a tolerar umas às outras.

Em 2006, depois de flertar um pouco com o concurso de karaokê de música japonesa, decidi me inscrever. A pressão era grande, já que não havia matsuri sem cantores – todos com ascendência japonesa – muito bem preparados subindo ao palco e mostrando suas habilidades musicais. Em contraponto, eu: sem aulas de canto, sem nunca ter subido num palco, recebendo aulas infantilizadas de teclado e com níveis astronômicos de timidez.

Ser Chiquinha Gonzaga talvez fosse mais fácil do que cantar em público.

Era uma noite de sábado quando subi pela primeira vez no palco do salão de festas do Nikkei. Ficar nas coxias e ver o público de outro ângulo já acelerou meu coração: eu seria a segunda a cantar. A segunda! Melhor ir de uma vez do que morrer de taquicardia esperando, pensei.

Com as pernas bambas e o corpo robotizado de tenso, logo tomei meu lugar à frente do público. Fazia calor, muito calor. Busquei os olhares amigos em vão atrás daquele holofote bem na minha cara. Estava sozinha e exposta como nunca estivera antes enquanto o show começava.

Uma confissão: a música que escolhi era péssima. Agudíssima (a maioria das cantoras japonesas o são) e sem introdução – ou seja, eu tinha que entrar cantando logo de cara; tudo para dar ruim, já que uma das dádivas da timidez é a incerteza.

Além de ter errado a entrada, eu não me ouvia. Não era só o fato de eu estar tão tensa que parecia que o ar não passava pela garganta, era como se eu tivesse ficado muda mesmo. Por mais que eu cantasse, não emitia som. Nenhum som. Meus ouvidos, inundados pelo instrumental da música, haviam perdido a capacidade de ouvir a própria caixa acústica.

Aquele público deveria ter recebido o Prêmio Ignóbil da Paz.

Finda a música, descubro que minha fisiologia ia bem (na medida do possível): alguém esqueceu de ligar o retorno, as caixas de som viradas para o palco para que quem estiver ali possa se ouvir. Alguém. Esqueceu. De. Ligar. O. Retorno.

Eu nunca mais me esqueci pra que servem aquelas merdas daquelas caixas.

– Ela vai cantar de novo, estava sem retorno.

Anunciou o apresentador do concurso, como se uma vez só não tivesse sido tortura suficiente.

Se o público ainda tinha alguma dúvida do meu “talento” como cantora, logo tiveram certeza: o operador de som soltou a segunda faixa do CD, com a voz de passarinho da cantora original, enquanto eu emitia os primeiros grunhidos da minha versão.

Categories: Crônicas

Deixe uma resposta