O conto abaixo foi publicado no livro A Sala de Banho (2014). Clique aqui para visitar a página da obra.


No início do mês de setembro, era comum sentir o perfume das flores pelo ar quando se saía à noite. Tão comum que já nem notava mais tal detalhe enquanto caminhava de volta para casa. Nem o vento um pouco quente que deslizava em sua pele e mexia seus cabelos. Tornou-se incapaz de sentir muitas coisas com o passar dos anos, acreditou até mesmo que o pedaço da sua humanidade havia sido jogado fora.

Sua mente estava completamente vazia, não prestava atenção em nada, apenas seguia seu caminho de volta sem um pensamento sequer. Até o instante em que, ao atravessar a rua, uma forte dor no peito o acometeu. Sozinho no meio de um lugar praticamente deserto, não podia fazer nada além de sentir.

Por mais que tentasse, não conseguia chamar a atenção de qualquer um dos poucos carros que passavam por ali. Iam todos correndo e provavelmente teriam receio de parar no meio da noite para um estranho acenando sofrivelmente, quase como um louco. Sentou-se então no degrau de uma loja fechada.

Ao tentar controlar a respiração, acabou sentindo o cheiro forte de flores entrando direto em suas narinas. A dor latejante diminuía vagarosamente. Tirou a blusa pesada que vestia e foi então que sentiu o ar fresco de início de primavera tocando seus braços. Uma sensação engraçada e nostálgica o envolveu docemente. Era como se estivesse aconchegado nos braços de sua mãe.

A dor no peito já não era tanta, aproveitava o prazer de estar vivo. Decidiu que se deixaria ficar ali até o amanhecer, mas no fundo queria congelar a noite para que nunca mais deixasse de perceber o vento ou o perfume das flores. Queria ainda sentir mais do que aquela rua tinha a lhe oferecer, porém, no momento não conseguiria se manter de pé. Já mais tranquilo, notou que seus olhos ficavam cada vez mais pesados e deixou-se levar pelo cansaço extremo. Era chegada a hora de ter um descanso de tudo o que tinha acabado de viver. Adormeceu com um sorriso no rosto e só foi tirado de lá quando a loja estava prestes a abrir as portas.

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