Sakura – ou cerejeira – é a árvore símbolo do Japão. Por cinquenta semanas, é uma planta como outra qualquer, ora com folhas bem verdinhas, ora com galhos finos à mostra. Mas, todos os anos, durante dez dias, ela se torna especial.

No Japão, a florada coincide com o início da primavera. Depois de ostentar as folhas verdinhas pelo verão, perde-las no outono e passar nua pelo inverno, à medida que o clima volta a esquentar, discretas bolinhas surgem em seus galhos. Inúmeras delas. Permanecem encubadas por um tempo até que, de repente, desabrocham em flores mínimas; uma explosão cor-de-rosa da noite para o dia.

Os japoneses comemoram o full boom das sakuras com o Hanami (花見 contemplar as flores, literalmente), uma tradição que os leva aos parques, praças ou quaisquer outros lugares onde haja cerejeiras. Lá eles se debatem por um lugar para passar o dia inteiro comendo, bebendo e observando as milhares de florzinhas desprendendo-se dos cachos numa chuva natural de pétalas.

Apesar da florada acontecer na Golden Week (uma semana no início de maio que abriga quase todos os feriados japoneses), esse não é o único motivo que leva milhares de pessoas às ruas nessa época. Existe outro, e creio que esse seja o mais forte:

As sakuras são efêmeras.

Se existe uma certeza é a de que o momento de plenitude daquelas árvores logo passará. A natureza toda sabe disso – e deixa os insetos loucos para polinizar. São apenas dez dias (às vezes menos) para apreciar, tocar, olhar, reproduzir. Passado o período, as flores secam e findam, dando continuidade ao ciclo da natureza.

Em Curitiba, o Japão do outro lado, as sakuras florescem em julho, por volta do dia 10 – mas isso eu só percebi na vida adulta, quando meu mundo atravessou as barreiras do translado casa-escola. A cidade está repleta de cerejeiras, tanto pelas ruas quanto pelos parques. Ao longo dos anos, percebi a coincidência poética da minha vida:

Eu havia nascido na época da florada das sakuras.

(Ao menos na época da florada no sul tupiniquim.)

Dentre os muitos costumes que aprendi com a cultura japonesa, um dos mais importantes é a manutenção dos rituais. São os rituais que nos identificam e demarcam nossa existência; em especial os que se repetem em uma mesma época ao longo dos anos.

Difícil dizer quando percebi que as sakuras floriam pouco antes do meu aniversário, mas imagino que tenha demorado pelo menos três anos para tirar uma conclusão definitiva – e, desde então, não há um ano que o desejo de ver as flores não arda em meu peito e me leve a busca-las, onde quer que estejam.

Vejo-as ao longe, seja de carro, de ônibus ou a pé. No mínimo vislumbre, já grito “uma sakura!” e corro até ela, atraída tal qual uma abelha em frenesi. Olho-a com uma satisfação que poucas vezes se repete, com a cumplicidade de quem vê uma raiz de si fincada no chão, florindo. Sorrio para ela, grata pela florada de agora.

Como se num acordo antes de eu nascer, elas retornam, ano após ano, para me mostrar sua beleza e dizer que tudo é efêmero, passa e se renova; como parte de um ciclo que tanto elas quanto eu fazemos parte. Amo-as num misto de saudade e certeza de que nós voltaremos a nos encontrar no ano que vem.

Na mitologia japonesa, a sakura é personificada pela Konohanasakuya-hime (ou Sakuya-hime), a princesa símbolo da delicadeza da vida na Terra. Suspeito ter conversado com ela no meu caminho para o nascimento ou ter sido por ela guiada sem que eu soubesse – e é ela que volta, sempre perto do meu aniversário, para que eu não me esqueça da minha essência.

Não à toa, as sakuras estão presentes no dia 16 de julho: um dos maiores desafios para mim é lidar com a transitoriedade da vida. Mudanças, efemeridade, quebra de expectativa e desapego costumam me fragilizar e machucar mais do que deveriam.

Não me resta dúvida de que, para aceitar a brevidade, um valor intrínseco aos japoneses, preciso aprender com o exemplo das minhas irmãs astrológicas: respeitar os ciclos da vida e investir minha energia no que importa – florir com força total sempre que a estação for propícia.

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