Nem bem abriu os olhos, e o vazio alvoroço a indicar fome; antes de tudo, água. Levantou-se no pisar duro, indicativo da idade que chega mansa, no desperceber das horas que passam ao corpo a endurecer as papilas. Os gostos não mais os mesmos; as fibras imastigáveis; o sono do sempre alerta porque perder começa na distração da forma. Banheiro, fervura, chá verde, torradas, nudez. No conselho do pai era depois dos cinquenta que as coisas começam a terminar. Era manco, ele; ainda nem crescido e, bum!, acidente de moto. O plano que a gente tem pra vida nem sempre é o que a vida nos planeja. Besteira no crock crock da torrada essa frase dele, de um conformismo cristão que lhe dava enjoos. Nem tudo acontece como o planejado, é claro, mas aceitar passiva a situação não era do seu feitio. Lutava. Com unhas e dentes, lutava. Nada de abrandar o fogo do coração só porque as coisas se dificultam. A vida é o todo e não o recorte, ao menos era o que ela havia escolhido pensar no gole de chá. E plano é traço longo e largo, coisa de não se enxergar tal qual horizonte do fundo do mar. Plano de vida não faço, concluiu em resposta tardia; construo pelo que fica, porque logo me vou. No fim das contas, o no meio tanto faz para quem me ler no depois adiante.

2019.04.19

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