O conto abaixo foi publicado no livro A Sala de Banho (2014). Clique aqui para visitar a página da obra.


Quando parei o carro, logo vi a mulher com cara séria falando ao celular e um rapaz fardado analisando a maçaneta do carro. Estacionei atrás deles com receio, mas mesmo assim desci, não aconteceria nada de errado com o meu carro naquela rua. Era dia, perto das 18h, horário de verão, dia quente em Curitiba. A mulher estava inconformada: “Eu sempre deixei o carro aqui e nunca tinha acontecido nada.” Sempre tem uma primeira vez, logo pensei, lembrando-me da vez em que eu estava no lugar dela, desesperada, chorando, agonizante e drama queen – minha especialidade.

Achei o prédio, entrei, falei com o porteiro: “Interfone estragado. Quer subir ou ligar?”. Sei lá! Poderia deixar as coisas ali na portaria mesmo, mas decidi subir, mesmo com aquele carro de vidro quebrado – se bem que o ladrão não voltaria tão cedo, eu achava. Décimo primeiro andar. Entrei no elevador nem velho nem novo, como suspenso no tempo. No dia em que o ladrão quebrara o vidro do meu carro, também havia um homem fardado por perto. Aliás, eram dois, um camburão e o ladrão lá dentro. Lembro-me dos olhos dele, um pequeno ser que me via chorar feito criança porque ele havia tentado me roubar. Com certeza devia me achar uma completa mané – e com razão.

O elevador parou no nono andar por algum tempo, mas meu corpo continuou subindo. Parou o tempo suficiente para eu pensar que a porta se abriria e entraria alguém do prédio desconhecido, só que ninguém entrou. O elevador seguiu e eu cheguei. Os prédios sempre me confundem. Onde estaria a porta que procurava? Com aqueles corredores todos iguais, será que ninguém se perde pelos andares? Olhei de um lado e de outro, previ a lógica básica da distribuição daqueles números e encontrei o número que procurava.

Apertei a campainha cigarra, daquelas que incomodam muita gente. Tenho medo de campainhas. Quando trabalhava em uma escola, todos davam risada da minha cara porque eu berrava quando alguém apertava a campainha – e normalmente era o entregador de água quem a apertava. A luz de presença se apagou sozinha, talvez eu tenha ficado muito quieta enquanto olhava o fim do corredor, que era igual ao outro extremo. Veio música de dentro da porta, alguém estava cantando. Quando a porta se abriu, eu logo vi que do outro lado o mundo era normal. Que além do corredor frio havia um espaço de alguém que diz “uma casa bagunçada” para se desculpar da normalidade. Estranho é pensar que existem milhares de casinhas como aquela, todas empilhadas num mesmo espaço. Estranho é eu ter medo de fachadas.

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