O conto abaixo foi publicado no livro A Sala de Banho (2014). Clique aqui para visitar a página da obra.


O homem engravatado chega ao shopping novamente e dirige-se à praça de alimentação, como sempre. Sem fazer cerimônia, tira o notebook da mala e o liga. O lugar estava vazio, eram 10h da manhã ainda. Normalmente era o primeiro a colocar os pés no lugar, só folgava aos domingos, provavelmente porque domingo era o dia mais cheio. Logo começam a saltar janelinhas avisando que chegaram novos e-mails. É nesse momento que o homem pega o celular e começa a telefonar, ficando ali até mais ou menos às 15h. Às vezes encontrava-se com uma pessoa qualquer, mas era sempre alguém diferente. Nunca comprava nada no shopping, só realizava seu almoço sozinho e no mesmo horário: às 13h em ponto.

Os funcionários das lanchonetes já não sabiam mais precisar há quanto tempo aquele homem ia assiduamente ao shopping. Nos momentos de folga, era comum torná-lo assunto de suas conversas. Levantavam inúmeras possibilidades, questionavam, alguns tinham até mesmo inveja do homem. Ninguém sabia o seu nome e nem ao menos ousavam perguntar. Não havia nenhuma dica, nem mesmo pagava suas refeições com cartão de crédito para ao menos descobrirem o nome. Chamavam-no apenas de o engravatado.

O engravatado carregava o celular e o notebook com muito cuidado, como se protegesse a própria vida. Além dos funcionários da região, ninguém notava a presença do homem. Num lugar tão movimentado, com tantas pessoas passando sem nem ao menos olhar para o lado, era impossível dar-se conta de que um mesmo ser encontrava-se num mesmo lugar dia após dia. Os seguranças já eram seus amigos de “bom dia” e “bom descanso”, as faxineiras volta e meia contavam-lhe coisas dos seu dia a dia na limpeza.

Ele parecia sentir-se em casa, era o que todos diziam. Falava alto ao telefone, ria e xingava. No entanto, era curioso perceber que ele nunca se levantava, nem ao menos para ir ao banheiro. O único momento em que o engravatado saía do lugar era para comer. Deixava assim o canto da praça de alimentação e saía olhando o cardápio de cada uma das lanchonetes. Com o passar das semanas, ele passava apenas por duas ou três lanchonetes e, por fim, havia escolhido o almoço diário: pastel.

A moça que ficava no caixa quase sempre tinha como último cliente o engravato, depois saía para o seu horário de almoço. Apesar de ter duas horas de descanso, ela se afastava do caixa apenas por meia-hora. Não tinha nada mais para fazer, nenhum outro empregado tinha folga no mesmo horário e ela já havia se cansado de caminhar pelo shopping para olhar vitrines cheias de coisas que não poderia comprar.

– Você sempre sai logo depois que compro meu almoço, não é?

– Sim! É meu horário de folga.

– Queria lhe pedir um favor. Você pode levar o pastel de amanhã pra mim naquela mesa lá? É sempre muito chato ter que guardar todas as minhas coisas para vir até aqui. Olha, eu já deixarei o pastel de amanhã pago, daí você decide se aceita meu pedido ou não.

– Não posso deixar um pastel comprado para o senhor.

– Guarde o dinheiro e compre-o amanhã no horário de sempre. Confio em você!

– Tudo bem então.

– Muito obrigado. Aliás, sempre me sento nessa mesma mesa, não sei se percebeu.

Um colega da caixa da pastelaria ouviu a conversa por alto e fez inúmeras perguntas para a moça. Qual era o nome do engravatado, o que ele fazia ali, por que ele estava almoçando só pastel… Logo a história se espalhou para as outras lojas, para os seguranças e faxineiras do shopping. Até mesmo os funcionários das demais lojas já começavam a falar sobre o assunto: o engravatado e a caixa da pastelaria.

Em poucas horas, a história ganhou novas versões, todas envolvendo uma declaração de amor do engravatado para a moça. Ninguém ousava lhe perguntar se aquilo era verdade, mas não deixavam de lançar olhares e sorrisos maliciosos a ela. Além disso, a venda de pastéis aumentou significativamente naquele dia, por mais que os funcionários do shopping não gostassem de pastel.

No dia seguinte, a caixa da pastelaria olha o relógio, exatamente 13h, seu horário de folga. Compra o pastel de sempre, tira o avental, pega a bandeja e vai em direção à mesa do engravatado.

– Aqui está.

– Obrigado. Quer se sentar?

– Não sei se devo, posso te atrapalhar.

– De maneira alguma! Almoce comigo. É chato nunca ter com quem almoçar.

– Então vou ali pegar a minha marmita. Já volto.

– Não quer comer outra coisa? Posso pagar pra você, sem problemas.

– Acho que não posso aceitar.

– Por que não? Você me fez um grande favor trazendo meu almoço até aqui, sabia? Só quero retribuir.

– É… Tudo bem então, né?

– Escolha algo lá, me conte o que é. Eu compro e te trago aqui.

– Não preciso escolher, já sei o que quero.

A moça faz seu pedido sorrindo e o engravatado logo se levanta da mesa, mas não sem antes recomendar que ela cuidasse das coisas dele. Ela não tem impulsos de mexer em nada, apenas observa como ele dispõe seus objetos naquele espaço. Imagina então que deve ser assim todos os dias e sorri carinhosamente para a cena, nenhum desconhecido havia a tratado assim. Um sentimento de gratidão invadia seu coração à medida que o via aproximando-se com a bandeja.

– Essa batata frita é uma delícia!

– Por que nunca comprou um lanche desses antes?

– É tão caro, não tive coragem de pagar tanto por isso.

– Ha, ha, ha! Mas olha só como você está feliz! Não vejo problema em se permitir comer uma vez ou outra algo diferente.

– Continua sendo caro. E pior, imagina se eu sentir vontade de comer isso todos os dias? Não sobrará dinheiro algum no final do mês!

– Tomara que eu não tenha feito uma besteira então comprando esse lanche para você.

Eles almoçaram juntos várias vezes a partir de então. A caixa da pastelaria levava o pastel de sempre e sua marmita. Ficou combinado que ele lhe pagaria um lanche por semana pelo favor que ela fazia. Conversavam sobre coisas corriqueiras, como programas de televisão, algumas notícias bombásticas, o tempo, a infância… Tinham essas conversas simples, fáceis de entender, comuns a todos e a ninguém. Foram convivendo sem nem ao menos terem contado seus nomes e sem muito saber um do outro. Foi assim que ela começou a aproveitar por completo a sua folga e o engravatado viu-se também tirando duas horas de folga por dia e começou a prolongar sua estadia no shopping até as 17h.

Logo que a moça voltava à pastelaria, era inundada de perguntas sobre o homem misterioso, as quais respondia com o que sabia. Agia tranquilamente com a situação, já que no fundo ela sabia que isso aconteceria a qualquer um que se aproximasse do engravatado. Os funcionários do shopping não acreditavam muito no que ela dizia, comentavam que eles deviam ser amantes já que ele tinha cara de casado, rico e infeliz. Era assunto para as horas vagas e as nem tão vagas assim, corria por todos os cantos do estabelecimento, no entanto, ninguém tinha coragem de perguntar tais coisas abertamente para a moça – muito menos a ele.

Certo dia o engravatado não chegou ao shopping no horário de costume e deixou a caixa da pastelaria bastante preocupada. Seus colegas começaram a lhe perguntar se ela sabia do motivo e levantaram inúmeras hipóteses para o acontecido. A manhã demorava-se a passar para a moça, até que finalmente chegou a hora de sua folga. Foi então que ela o viu aproximando-se e não conseguiu evitar o sorriso.

– Você me deixou preocupada.

– Me desculpe, mas hoje eu só vim para te fazer uma surpresa.

– Surpresa?

– Hoje nós vamos conhecer aquele parque que você sempre quis ir.

– Mas… É muito longe! Não conseguiremos voltar até o fim do meu horário de folga.

– Claro que vamos.

– Tudo bem… Estou confiando em você, hein!

Foram de ônibus. Uma viagem que parecia ter durado horas para ela. Eles continuavam conversando, animados, dividiam suas pequenas besteiras, não se importavam em gastar o tempo. A caixa achava tudo lindo, comentava sobre cada árvore, cada flor, cada placa que via. Vivia um momento de felicidade plena, de descontração, de um simples desligar-se do mundo e pensar somente em si. Enquanto isso, o engravato a observava como quem admira uma criança brincando no seu próprio mundo.

– Chegamos! Agora você pode descer.

– Não consigo. Posso mesmo?

– Claro que pode. Não seja tão boba! Afinal, não era seu sonho vir até aqui.

– Era. E é tão bonito tudo! Muito obrigada por me trazer.

– Desça e aproveite o momento, porque logo teremos que voltar se ainda quiser chegar às 15h.

Ela desceu vagarosamente, o vento chegava a brincar com seus cabelos. Vento de quase outono, refrescante. Fez um silêncio profundo enquanto caminhava lentamente no parque. Procurava observar cada detalhe do que via e aos poucos era invadida por uma paz jamais sentida. Tocava as plantas, estava praticamente em casa, satisfazia-se por poder guardar aquele momento para si eternamente, sem desejar fotos nem filmagens. Tirou os sapatos e andou com os pés descalços na grama, sentiu-a tão bem que se esqueceu do resto.

De repente algo estralou em sua mente e ela se lembrou do engravatado. Procurou-o tranquilamente, mas não o viu. Olhou para todos os lados, andou pelo parque, foi refazendo o caminho… E nada! Era como se ele tivesse fugido durante o passeio. No instante em que a caixa da pastelaria se deu conta disso, entrou em desespero, pois não sabia como voltar sozinha ao shopping. Notou que havia sido traída por alguém em quem confiava plenamente. Abandonada.

– Você tem algum sonho?

– Tenho. E você?

– Tenho vários. Qual o seu sonho?

– Me mudei para essa cidade porque queria conhecer um parque.

– Conhecer um parque?

– É! O maior e mais bonito de todos os que já ouvi falar.

– E por que não foi lá ainda?

– Logo que cheguei aqui, comecei a trabalhar e como sempre saio muito tarde. Não tive chance de ir lá ainda.

– Então por que não vai lá no seu dia de folga?

– É que… Eu não sei como chegar lá sozinha, daí toda vez que penso em ir, acabo desistindo, fico com medo.

– Mas não veio aqui pra isso? Deveria ir logo lá, é tão simples.

– Você não acha que quanto mais esperamos para realizar um sonho, mais bonito ele fica?

– Não! Eu me frustro se não faço logo o que quero.

– E quais são os seus sonhos? Aposto que no fundo nenhum deles é um sonho de verdade.

Foi assim que ela descobriu qual era o verdadeiro sonho do engravatado. Contou seu dinheiro, comprou uma garrafinha de água e foi ao ponto de ônibus.

– Tenho muito medo dessa cidade.

– É uma cidade como qualquer outra.

– Não conheço nenhuma outra cidade como essa.

– Pois então deveria tentar conhecer a cidade na qual está.

– E como? Mal sei chegar até o shopping, quem dirá ir para outro lugar.

– Por que veio para cá se vai ficar presa a esse shopping?

– Não ficarei presa, só estou passando um tempo aqui, me adaptando.

– Até um dia criar coragem para sair por aí sem rumo, não é?

– Pode ser algo assim.

O medo fez com que parecesse que todas as pessoas estivessem olhando a caixa da pastelaria de cara feia, reprimindo-a. Era como se cada qual estivesse questionando as suas ações, como se lhe dissessem que estava completamente enganada sobre o mundo. Nada mais era tão belo e os minutos demoravam cada vez mais a passar. Os sinaleiros demoravam cada vez mais para abrir. A impaciência misturada com a ansiedade. O medo. Ela mesma questionava-se sobre o caminho, sobre o ônibus que havia escolhido, se as pessoas com quem havia conversado tinham dado as informações certas ou se estavam todas tentando enganá-la.

O cobrador a chamou. Avisou que ela deveria descer no próximo ponto e andar algumas quadras para enfim chegar ao shopping. Mesmo em dúvida, seguiu as instruções do homem e se pôs a andar sempre se perguntando se estava no caminho certo, se não teria entendido a explicação de maneira errada, até parar numa confeitaria para perguntar onde ficava o shopping.

– Demorei muito?

– Um pouco mais do que eu pensei que demoraria.

– Em quanto tempo chegou aqui?

– Meia hora.

– Nossa! Só isso? Devo ter pegado o caminho mais longo!

– Não tem problema. Só fiquei com medo de que você não voltasse para cá hoje. Acho que não percebeu, mas deixei um celular com você, assim eu poderia te ligar.

– Ah! Então me deixou lá com a consciência limpa, né?

– Me perdoe.

– Eu que peço desculpas. Sou tão boba, nunca percebi…

– Não se preocupe mais. Vamos embora, já me cansei de ficar nesse shopping.

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