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O fim da autenticidade e o vício disfarçado de engajamento

Escrito por

Mylle Silva

Sou escritora. Entre os altos e baixos da vida, tive a chance de escolher ser escritora e encontrar um caminho para pagar os boletos trabalhando com as palavras. Quanto a isso, não posso reclamar.

Sou da geração que viveu a infância sem internet e viu o mundo se transformar ao longo da adolescência. Ao mesmo tempo em que escrevia textos para os murais e jornais da escola, aprendi HTML na era pré-blog e comecei a montar minhas próprias home pages. Aquele espaço dividido em frames, com cursores de borboletas, neve caindo e barras de rolagem coloridas foram mágicos e cruciais para desenvolver a minha autenticidade.

Havia, é claro, contadores de visitas nesses sites pré-blog, e até mesmo nos blogs, mas nada comparado à exaustão provocada hoje por métricas, seguidores, curtidas e engajamentos. Antes das técnicas de SEO e das redes sociais, sites e blogs eram espaços de livre expressão, que proporcionavam a todos autenticidade e liberdade tanto de forma quanto de conteúdo. Os criadores de conteúdos não eram avaliados ou se avaliavam por números, mas sim pela qualidade das relações que proporcionavam. Isso sim é um belo conceito de fama, não acha?

A Bummer substitui seu contexto pelo contexto dela. Do ponto de vista dos algoritmos, você já não é um nome, mas um número: o número de seguidores, curtidas, cliques ou outras medidas da sua contribuição para a máquina em tempo real.

Jaron Lanier, em Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais

Abandonamos muitos hábitos – como visitar blogs, buscar conteúdos diversos e se importar menos com números – por causa das redes sociais. O argumento pode soar batido ou até mesmo conspiratório, mas ganha peso quando Jaron Lanier, desenvolvedor dos primórdios do Vale do Silício, conta como as redes sociais estão modificando nossos hábitos e a nossa relação com o mundo.

Nas estantes das livrarias (quando, nos tempos pré-pandemia, podíamos ir até elas) o título 10 argumentos para você deletar agora suas redes sociais sempre captava minha atenção, como o olhar cúmplice do amigo capaz de ler meus pensamentos. Faltava, é claro, o tempero da coragem para, através da leitura, transformar o pressentimento em conhecimento.

Semana passada venci o tal medo, peguei o e-book e descobri que minhas críticas às redes sociais tinham fundamento.

À medida que os algoritmos foram evoluindo para personalizar nossas buscas e feeds, mais vigiados e limitados nos tornamos dentro da internet. Esses grandes gênios da tecnologia dos quais tanto falamos transformaram o ideal de acesso ilimitado ao conhecimento humano em uma corrida frenética por atenção – e pior, nós a alimentamos todos os dias!

Lanier chama as redes de Máquinas BummerBehaviors of Users Modified and Made into Empires for Rent (Comportamentos de usuários modificados e transformados em impérios para alugar, em tradução livre). Ou seja, como as redes sociais estão ganhando dinheiro com o nosso trabalho, enquanto nós estamos cada vez trabalhando mais.

A Bummer é uma máquina com seis partes móveis. Eis um recurso para memorizar os seis componentes da máquina, caso você tenha que se lembrar deles para algum teste: A de Aquisição de Atenção que resulta na supremacia do babaca B de meter o Bedelho na vida de todo mundo C de Comprimir Conteúdo goela das pessoas abaixo D de Direcionar o comportamento das pessoas da maneira mais sorrateira possível E de Embolsar dinheiro ao deixar que os maiores babacas ferrem secretamente todas as outras pessoas F de multidões Falsas e sociedade Falsificadora.

Jaron Lanier, em Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais

Um ótimo exemplo que o autor dá é o da obsolescência dos tradutores. Em teoria, ferramentas como o Google Translate em breve substituirão os tradutores-pessoas, certo? No entanto, a questão é que a língua é um ente vivo e nenhuma IA é capaz de acompanhar todas as mudanças, gírias e novas palavras que surgem em cada idioma. A verdade é que cada um de nós, quando usamos uma ferramenta de tradução, estamos alimentando a máquina, dando o nosso conhecimento para o Google sem receber nada em troca.

Em outras palavras, o que nós, como sociedade, julgamos obsoleto – como a escrita para blogs, sites ou ao busca de informações fora das redes sociais – nada mais é do que uma mudança massiva de comportamento. Até aí, tudo bem; a humanidade já passou por diversas mudanças de comportamento ao longo da história. O problema é que o objetivo dessas mudanças é nos deixar mais tristes e enriquecer os gigantes do Vale do Silício.

Nós modificamos o comportamento uns dos outros o tempo todo, e isso é bom. Afinal, só uma pessoa insensível e indiferente não mudaria seu modo de agir em função de como o outro reage. Quando a modificação de comportamento mútua funciona, talvez isso seja parte daquilo que chamamos de amor. Não precisamos pensar em livre-arbítrio como se fosse uma intervenção sobrenatural em nosso universo. Talvez o livre-arbítrio exista quando nossa adaptação ao outro e ao mundo ganha uma qualidade excepcionalmente criativa.

Portanto, o problema não é a mudança comportamental em si. O problema é quando isso acontece de maneira implacável, robótica e, no fim das contas, sem sentido, a serviço de manipuladores invisíveis e algoritmos indiferentes.

Jaron Lanier, em Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais

Logo no começo do meu argumento, disse que escolhi ser escritora e estou bem resolvida com isso. No entanto, me incomoda pensar quantas vezes fui levada a modificar comportamentos para poder divulgar meu trabalho, tanto literário quanto informativo.

Pense em quantas atividades precisamos nos sujeitar para poder ressoar no mundo de hoje. Como somos validados ou validamos pessoas e instituições por causa dos números que elas apresentam em suas redes. Em todas as técnicas que estudamos para convencer quando deveríamos divulgar conhecimentos maciços.

De início pode parecer uma contradição, mas não é; processos coletivos fazem mais sentido quando os participantes agem como indivíduos.

Jaron Lanier, em Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais

Se você, assim como eu, quer divulgar o seu trabalho nesse mundo atribulado, logo perceberá que deletar suas redes sociais significa ser esquecido. E sim, todos tememos o esquecimento.

Qual é a saída então? A única saída é um aforismo do grego antigo: conhece a ti mesmo. Conhecer como você se relaciona com a tecnologia e compreender o quanto ela te afeta é a única forma de viver bem hoje. Leia, estude e encontre as suas maneiras de escapar das redes sociais, como eu decidi fazer a partir de agora. Apesar de não deletar minhas redes sociais, passarei a produzir conteúdos fora delas, porque é essa a comunicação que eu, como escritora, escolhi desenvolver.

E se escutar uma voz interior ou levar em consideração uma paixão por ética ou beleza proporcionasse um trabalho mais importante a longo prazo, mesmo que considerado menos bem-sucedido no momento? E se atingir profundamente um pequeno número de pessoas for mais importante do que atingir todo mundo com nada?

Jaron Lanier, em Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais

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