Até então, era uma tarde qualquer de outubro de 2007 quando meu telefone tocou. Uma tarde daquelas que você nem se lembra o que estava fazendo – se é que fazia algo. Trabalhando? Estudando? Querendo desistir da monografia um mês antes da defesa?

(Escolho a terceira opção porque sou dramática)

Do outro lado da linha, a voz conhecida de Rissa, sub cônsul cultural do Consulado do Japão em Curitiba. O que você vai fazer no início de março do ano que vem?, me perguntou com a calma de um passarinho. 

Travei. Eu sempre travo nessas perguntas; mal sabia o que faria na semana seguinte, quiçá dali a cinco meses.

– Acho que nada.
– Então você ganhou uma viagem para o Japão.

Meu peito ferveu, meus braços amoleceram. Me perguntei para aquele Japão, aquele lá longe, do outro lado do mundo?, enquanto ela explicava cada detalhe do programa e da viagem.

Naquele olhar desgraçado para o passado, concluo: ganhei uma viagem para o Japão porque organizava eventos de anime e mangá. Foi como se eu estivesse dentro de uma das histórias que lia, nas quais o impossível acontece numa fração de segundo e transforma toda a vida da personagem.

No ano de 2008 comemoramos o Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, que culminou em uma série de festivais, monumentos e inaugurações por todo o país. Foi a época em que se falava sobre a cultura japonesa em todos os cantos, desde supermercados até novelas da Globo.

Fale com qualquer pessoa da comunidade nipônica e logo você perceberá que ela se refere ao Japão como uma pessoa. O Japão mandou dinheiro, o Japão aceitou nossa proposta, o Japão tomou tal atitude. Me parece que os japoneses transferiram a divindade atribuída ao Imperador para o país, como se o Nippon estivesse acima de todos.

Rissa me contara que eu havia sido selecionada para integrar o programa Jovens Líderes, composto por 25 jovens brasileiros que tinham se destacado de alguma forma na divulgação da cultura japonesa em terras tupiniquins. A aventura toda duraria dez dias – três de viagem e sete de estadia no Japão – tempo em que viajaríamos para quatro cidades: Tóquio, Quioto, Gunma e Hiroshima.

E claro, o Japão pagaria tudo.

Por cinco meses, era inacreditável abrir os olhos e pensar que eu estava prestes a conhecer o Japão. Um Japão que, por mais que eu amasse, não tinha um plano concreto para visitar – e estava bem com isso. O Japão do outro lado me supria, me satisfazia. Eu amava as pessoas, me transmutava com as experiências, mas por que não ir além? Meu coração, afinal, é expansível.

Em cinco meses defendi minha monografia e concluí a graduação de Jornalismo, recebi uma carta da imobiliária solicitando a casa para uso do dono e tive que me mudar. Sem saber, minha chegada e minha partida dessa nova casa marcariam as duas aventuras que tive no Japão.

Porque, claro, só uma semana no Japão é pouco, muito pouco.

Parti de Curitiba na manhã do dia 02 de março de 2008 para embarcar, pela primeira vez, em um avião. Se eu tinha pânico de voar, era hora de descobrir, porque passaria as próximas 30 horas planando acima das nuvens para saltar 12 horas no futuro e chegar na ilha do sol nascente.

Junto com aqueles 24 desconhecidos que se tornaram melhores amigos de jornada, dormi pouco e viajei muito. O Japão tinha preparado todo o nosso itinerário e nos fez aproveitar ao máximo o tempo de estadia. Vivemos um pouco de cada faceta daquele país, passando pelo colorido de Akihabara, o peso da tradição de Quioto, a vida dos dekaseguis em Gunma e o sofrimento estampado em Hiroshima.

De todas as experiências vividas nessa viagem, a de Hiroshima foi a que mais me marcou. Visitar o memorial da bomba atômica é como ter o ar suprimido dos pulmões. A visão vira nébula, o corpo amolece. A dor vivida ali está em cada pedaço de terra, em cada parede. 

Além da visita ao Memorial, ouvimos o relato de uma sobrevivente. Enquanto a radiação destroçava tudo pelo caminho, os sobreviventes só pediam uma coisa: água, água por favor. Mas nem água podiam beber, porque quem bebesse aquele líquido contaminado seria rasgado por dentro.

Entre hotéis, lojinhas, almoços chiques, translados constantes de ônibus e máquinas automáticas de bebida, Hiroshi Homma, outro jovem líder saído de Curitiba, me disse que aquela viagem era como fogos de artifício: um momento bonito, mas efêmero.

Fogos de artifício.

Por mais que eu tivesse sono, não conseguia fechar os olhos dentro do ônibus. Cada nova paisagem era um fogo de artifício explodindo, eclodindo e escapando do meu olhar até ser vertida em instante.

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