O conto abaixo foi publicado no livro A Sala de Banho (2014). Clique aqui para visitar a página da obra.


Aquelas ruas com certeza estavam encardidas em seu DNA, tão encardidas que os anos em que passou de molho não foram suficientes para acabar com as manchas. Maravilhada, olhou a vista costumeira de outros tempos como se a distância entre ontem e hoje fosse mera questão de ponto de vista. E, pensando bem, era.

Em silêncio, foi sorvendo a verdade: ela gostava daquele lugar. Gostava de pensar nas calçadas esburacadas e cheias de mato nas quais caminhou quando criança para ir ao mercado. Amava as poças de lama que espirraram barro no seu vestido florido de menina. A valeta, ali ao lado da escolinha, na qual atirou a primeira carta de amor que recebeu.

A rua que ficava larga bem perto da sua casa. Quantas vezes teria passado por lá? Inúmeras, em tantos horários, com tantos humores e pensamentos. Sem dúvida aquela era a rua por onde mais passou na vida. Às 18h em ponto, o trem apareceu, trem de passageiros com destino ao litoral. A buzina ensurdecedora no cruzamento, ele berrava: “Estou passando! Não se matem na minha frente!”. De longe parecia tão lento, tão em paz – quer transporte mais em paz do que um trem em direção ao litoral?

Saiu para tomar um ar, o vento veio de um lado e depois de outro, bagunçando seus cabelos. Na esquerda, o mercado em que costumava ir com frequência e um campo com flores amarelas. Atravessar o mato e chegar ao mercado só por entrar, como num rito de passagem. Olhando para a direita, vislumbrou mais ou menos a região onde morava, perto do morro com a igreja que tocava músicas de missa todo domingo a partir das 9h. Quantas vezes foi à igreja mesmo? Pegou um cigarro e tentou esquecer as bobagens que tinha acabado de pensar, queria se distrair com qualquer outra coisa. Lembrou-se das contas atrasadas, de ter prometido para alguém que iria parar de fumar, que queria largar as palestras chatas, mas nada a fazia desligar o famoso estalo: a mutilação estava apenas começando.

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