Sempre me autodenominei uma pessoa monogustativa – mesmo que eu tenha inventado tal palavra, seu significado é explícito. Quando gosto de algo, gosto por meses, anos ou pela vida toda; fazendo do gostar parte do ritual de quem sou. Sentir vontade de comer determinados alimentos em certas épocas; visitar um local e já desejar aquele prato especial que só tem lá; encontrar amigos e saber que, com eles, o lanche será o mesmo de sempre.

Mas, assim como tudo até os dezoito anos, minhas experiências culinárias foram restritas a cúpula escola-casa, dando pouco ou nenhum espaço para comidas exóticas tais como sushi e sashimi.

Só que antes, muito antes de aventurar-me no peixe cru, eu teria que vencer outro preconceito: o macarrão com muitos legumes e pouca carne – também conhecido como yakissoba.

Durante toda minha infância e minha adolescência, toda refeição que se prezasse deveria conter carne (muita carne) e um pouco de algo para complementar (arroz, alface, maionese, etc). Outros legumes e verduras eram raridade no meu prato, assim como peixe e ovo.

Na primeira vez que vi aquela miscelânea de macarrão frito (quem frita macarrão, afinal?), acelga (que não é repolho), cenoura, brócolis, couve-flor, frango e carne unidos por um molho agridoce, tive o maior preconceito, mas fui levada a aceitar.

Não é à toa que o yakissoba é um dos pratos japoneses mais conhecidos no ocidente: macarrão com legumes e carnes, todos cozidos, é a melhor opção entre outros pratos com nomes estranhos, como udon, takoyaki, tempurá, dorayaki, manju, karaague, teishoku, lamén, okonomiyaki, etc. Como ter certeza de que não receberei um bicho cru (quem sabe vivo) para comer? E como lidar com aqueles pauzinhos?

Alguns estudos indicam que nosso paladar muda em ciclos de sete anos. Outros dizem até que, tal qual aranhas e cobras trocam de pele, cada um de nós se transforma por completo em cada um desses ciclos. Que nos transformamos, é fato, mas se existe algum padrão temporal para isso, é questionável. O que importa é que modifiquei o meu paladar se modificou.

Do meu primeiro yakissoba, comi apenas o macarrão e as carnes. Do meu segundo também. E do meu terceiro, meu quarto… já tinha parado de contar quando decidi dar uma chance aos brócolis – e gostei. O molho já era mais tolerável e o macarrão com um pouco de carne ia ficando sem graça. Aos poucos, o prato foi se completando e meu paladar, se modificando.

Comer, além de essencial para a sobrevivência, é um ato socializador. A medida que fui conquistando mais amigos na comunidade japonesa de Curitiba, os convites para ir a restaurantes japoneses foram aumentando. Na companhia de mestres para me mostrar o que e como comer, tive a chance de experimentar inúmeros pratos diferentes ao longo do tempo até montar o meu hall de favoritos – hoje seguido à risca no melhor estilo monogustativo.

Dominados os pauzinhos, era chegada a hora do peixe cru. Não tenho lembranças da primeira vez que experimentei um sashimi de salmão, mas estou certa de que comecei com hossomaki (aquele sushi com um pedacinho de salmão no meio) para então me aventurar em versões com cada vez mais peixe e menos arroz até colocar na minha boca a famigerada fatia de salmão cru.

Fecho os olhos e recebo o peso do salmão cru na minha língua enquanto ele se desmancha no calor da saliva. Mastigo-o com educação e reverência, um peixe que viveu para me proporcionar a efemeridade do prazer de comê-lo. O ciclo dele, no mar ou em um tanque, interrompido para me entregar sua gordura, sua frieza e viscosidade, fadado a sucumbir ao nada através do julgo dos meus dentes.

Uma delícia.

Mas a culinária japonesa não me entregou apenas o prazer do peixe; mostrou-me também uma nova perspectiva: com o aumento dos vegetais na minha alimentação, a necessidade de carne vermelha foi diminuindo até se extinguir. Mesmo não sendo vegetariana, deixei para trás meu lado carnívora e excluí da minha dieta o boi e o porco.

Não resta dúvida: hoje vivo mais leve.

Categories: Crônicas

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