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Qual é o lugar da arte na sua vida?

Escrito por

Mylle Silva

quem consome, não paga / quem faz, não mostra / quem estuda, não encara / quem dela vive, pouco comemora

(Texto publicado em fevereiro de 2021, no meu perfil do Instagram)

Se você está aqui, seguindo o meu trabalho, é poque se relaciona com a arte. Seja artista ou admirador, que faz da arte sua principal atividade ou a leva como hobby, não importa: foi a arte te atraiu até aqui.

Depois de tanto conversar sobre fazer arte, deparei-me com um padrão: o lugar inferior no qual, como sociedade, colocamos a arte. Passando longe do clichê “arte é a primeira área que cortamos quando a coisa aperta”, é comum colocarmos a arte em segundo plano, mesmo que ela nos chame repetidas vezes ao longo da vida.

A disputa arte versus capital não é nova e não será resolvida num mero post de instagram. No entanto, há material para ser explorado — começando pelo tabu que alguns artistas ainda enfrentam quando o assunto é dinheiro. Para encurtar o raciocínio, pouco importa se arte é ou não é produto, se devemos atribuir ou não um “valor de venda” a ela.

A verdade é que quando alguém dá dinheiro pela sua arte é porque essa pessoa está atribuindo valor a você. Demorei muitos anos para compreender que o dinheiro que recebia pelas vendas dos meus livros, por exemplo, era um depósito de confiança que as pessoas faziam em mim e não um favor. Receber dinheiro por um trabalho artístico nada mais é do que troca de energia. É claro que compra quem pode (se é preciso entrar nesse mérito), mas, antes de poder, a pessoa precisa querer.

É claro que você pode virar pra mim e dizer “não pago porque não tenho dinheiro”. Compreendo, é uma situação bem comum. Mas será que assim não criamos um ciclo vicioso? Quantos de nós, ao ter R$5 sobrando, pensamos imediatamente em apoiar o trabalho de algum artista que admiramos? Pouquíssimos têm esse pensamento porque, como sociedade, não estamos acostumados a apoiar o trabalho artístico.

Agora que já falei sobre dinheiro, vamos ao segundo aspecto: ser artista por hobby. Você tem todo o direito de não querer pagar os boletos com arte. De separar os dois mundos, de usar a arte como válvula de escape e como passatempo. No entanto, você não tem o direito de ser um artista menos capaz só porque não ganha dinheiro com a sua arte. Tempo de estudo, produção e desenvolvimento criativo não estão interligados a quanto você ganha para fazer arte, mas sim ao lugar no qual você coloca a arte da sua vida.

Dizendo o óbvio, a expressão artística é imensa. Cada um encontra a sua forma de se expressar dentro do chamado da arte — e é aí que está a magia. No entanto, de que adianta atender ao chamado da arte quando lhe reservamos um lugar tão secundário? Quando os boletos, os problemas, o nosso psicológico e a rotina sempre estão em primeiro plano? O pouco valor que damos à arte, seja como produtores ou admiradores, nos faz acreditar que arte é luxo, é para quem fez aulas, para quem teve oportunidades. Mas arte não é nada disso.

A arte não é melhor nem pior do que nossas questões cotidianas, porque a arte é parte do cotidiano. Arte é o que podemos criar dentro de uma técnica, a partir de cada coisa que nos rodeia. Arte é contato com o outro de fora e o outro de dentro; é transformar-se um pouquinho a cada dia. Arte é descoberta, também de fora pra dentro e de dentro pra fora.

Então, por que rebaixar a arte quando tudo é permeado por ela?

Se você chegou até aqui, tenho apenas um pedido: a partir de hoje, coloque a arte no lugar que ela merece.

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