Vivo esse fingimento frouxo, maniqueísta, como quem crê ser alguém. Envolta dessa parafernalha, instrumentalizo a mim e aos outros, numa dança de pesos inverossímeis. Da voz que dita meus passos desde a infância não me livro: maior a importância da decisão, maior o seu eco. Ecoa através das minhas células, em cada uma delas, na infinitude de mim. É contra ela que luto, é para me livrar disso que ainda durmo e acordo.

Mas nunca me livrarei.

Nunca sairei da caixa em que nasci.

Ilusão é buscar a liberdade tão cega. Mesmo quando tudo é luz, permanece sempre o ponto escuro que tento driblar; uma tatuagem no peito, à espreita, bote proeminente. Quando a voz volta a falar, eu arrengo, mas, no fim, me submeto.

Posso vencer o argumento, mas não a realidade.

Não há saída além da submissão. De baixar os olhos para o chão dizendo você está certo. Posso me cercar de toda a beleza do mundo, com toda a alegria, ocupar-me com todo o trabalho; e ainda ele estará certo. Ele ditará meus passos. Ele dirá o que devo ou não fazer. Ele, mesmo sendo só uma voz na era dos bytes.

Cerceada por condições, esmoreço. Sufoco minhas reais vontades em prol de algo maior que desconheço. Algo fora do controle de mim. A voz diz faça assim porque é o melhor então vou lá e faço. A grande escolha nunca é minha porque vivo em liberdade condicional. A mim cabem as pequenas decisões como passarinhos.

Você precisa proteger, cuidar, amar. Estar sempre por perto. Então pode fazer o que quiser que eu te ajudo.

Condicional.

Nas entrelinhas, a voz diz que eu vou falhar. Que tudo não passa de um sonho, uma paixão. Nunca palavras de puro apoio, só um estou com você mas você tem que ver se é isso mesmo, seguidas por perguntas sobre números de todos os gêneros. Estica a mão e começa a me levantar para depois dizer que não tem condições de me levantar sozinho porque tem medo de cair junto.

A voz sempre diz que não podemos cair juntos.

Mas é sempre ela que escolhe o que devo fazer para me levantar.

Uma caixa. Precisarei de inúmeras delas para empacotar tudo sem saber para onde vou. Sei apenas que fui convidada a sair da caixa onde estou e procuro outra. Outra caixa para me enfiar, que será seguida por outra, e outra e mais outra. Uma série de caixas enquanto a vida escorre na condicional.

Uma boneca.

Nunca sairei da caixa.

2019.07.05


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