O conto abaixo foi publicado no livro A Sala de Banho (2014). Clique aqui para visitar a página da obra.


I

Estou apenas comigo mesma há quase uma semana. No quarto eu até posso sentir o silêncio, o silêncio do nada, de ter somente o corpo para carregar e nada mais. Sempre me perguntei por que ando. Afinal, por que não paramos um dia e nos esquecemos em algum canto? Não é que não haja outra saída além de andar, mas nós somos ambiciosos, sempre queremos mais. Não basta o corpo, temos a fome. E não basta a comida, queremos algo gostoso, que nos faça bem. Não basta ser o melhor se ainda não for o suficiente.

Como seres humanos que somos, vivemos muitas experiências. Colocados no mundo, simplesmente começamos a andar e continuamos. Mas pessoas são complexas, vivem, guardam e se esquecem de contar o relato do corpo. Esquecem de contar a loucura que é viver onde quer que se esteja. Viver dói e cansa, apesar de ser bom.

Sinto-me numa espécie de retiro espiritual, sem ter com quem conversar e pensando exclusivamente em mim. Não sinto tédio, sinto apenas uma espécie de silêncio interno – eu, tão dividida, sem ter com quem dividir.

Mesmo sem saber para onde ir, eu continuo andando. Um passo, depois outro, mesmo que esbarrem em mim no terminal enquanto eu tento descobrir qual escada devo subir para pegar o trem certo.

II

O amor é como vento, às vezes é forte, muito forte, quase nos derruba. Há dias ainda em que é como brisa fraca, quase imperceptível, mas está lá, nos envolvendo. Outras vezes ainda achamos que ele simplesmente deixou de existir, de tanto que anda com a gente.

Hoje venta forte, um vento gelado que ignora as roupas mais finas. Não há como negar sua existência, ele se anuncia, mexe meus cabelos, meu cachecol, rodopia as folhas secas no chão e modifica o cenário.

Confesso, eu queria muito te ver, falar umas verdades ao pé do ouvido, coisas entaladas na minha garganta, na ponta da língua, saltando aos olhos, palpitando no peito, cambaleando as pernas, deixando-se levar. Queria te dizer que estou louca, uma loucura saudável e comedida, uma loucura quase amadurecida. Loucura que vai me negar alguns momentos calmos, mas não me foi dado o direito de escolha, só queria tentar uma coisa e todas mais sem pensar a fundo se eu sou o homem certo para você, fica só de lado e ouve minha respiração, dorme aqui comigo alguns dias como quem não quer nada e no dia seguinte você fica para sempre, sem perceber como tudo aconteceu.

Abri-me numa liberdade estranha e um rasgo na alma se fez. Um abismo e uma vontade dentro do sonho, mesmo sem saber.

III

Longe de uma vida estreita, eu abri as comportas de muito além de mim. Ainda é noite apesar de eu sempre achar que é noite quando eu quero que seja. Por felicidade eu entendo uma calma acelerada que me faz capaz de realizar, mas deixa em aberto o que e como. Uma fome de devorar aos poucos, insaciável. Sem planos mil, viver é mais forte do que o monte de planos que surgem e morrem.

Esqueci-me do mundo das pessoas normais e as culpas me vão se esvaindo. Continuem vivendo que eu registro sem pretensões nem compromissos.

As pessoas adoram assistir ao mundo. Eu gosto mesmo é de assisti-lo de um outro ângulo.

IV

A solidão é uma sensação estreita, apertada. Não há para onde se mover, por mais que se ande, não há lugar para se encaixar. De longe a vida é bem mais simples, tudo funciona sem sabermos, os dias passam na bela ignorância da existência. Serei mais feliz por não saber o que não sei? Solidão é uma loucura divina e grotesca, porque é bom estar só, mas com limites.

De tudo o que não sei, o que deveria saber?

Algumas pessoas são lindas, acertadas, decididas… Ou simplesmente não sabem ser outra coisa. Quero tudo, depende do dia. Imagino ser a luz que se acende e que logo vai sumir. Se existe, quero tentar, será que posso? Hoje não, quem sabe amanhã, porque ontem me cansei daquilo que hoje quero mais. Será a idade? Será uma fase? Há dias em que me sinto mais madura, mas nesses dias fico mais sem graça no espelho. Já tomou uma decisão? Acabei de esquecer o que queria fazer, era importante?

Quero ser uma folha de outono que se prepara o ano inteiro para flutuar meio minuto, cair no chão e ser pisada por alguém.

Por favor, desperte o leão que há em mim.

V

Conheço dores que não cabem no peito, que a qualquer momento rasgam meu corpo. Conheço uma saudade maldita que me transporta em três segundos para o outro lado do mundo e me faz esquecer que, assim que eu abrir a porta, poucas pessoas a minha volta falarão português.

Por entre lembranças e desejos, sei que estou montando uma realidade estranha em minha mente, uma alternativa entre a minha imaginação e as pessoas que amo.

Sei desde o início, estão todos dentro de mim. Mas, mesmo assim, a solidão do corpo é insuportável. Entre o medo e o gosto pela solidão, sinto-me confortável, mas há raros momentos nos quais a balança pende para algum lado e me vejo descontrolada.

Se quero acordar do sonho é porque transformou-se em pesadelo.

Não sei ir embora, então não quero ser demais. Nunca consegui manter as relações de plástico, aquelas em que nenhum sentimento está envolvido e só servem para fugir da solidão. Nesse sentido me relaciono melhor com meus inimigos do que com estranhos, já que o ódio é algo; a indiferença é nada.

Um corpo sozinho é como se amarrado no espaço de si, preso sem voltar nem prosseguir, sem suporte, sem contato, sem ser verdadeiramente mesmo sendo demasiado. Um corpo sozinho segue para alcançar o objetivo, mesmo que viver seja terrível e desnecessário, mesmo que seja apenas gastar o tempo que resta em coisa alguma, mesmo que a mureta de proteção da janela seja muito alta.

Não quero abrir a porta hoje. Pode ser que eu me esbarre no mundo.

VI

Andar. E continuar andando. Houve um tempo em que eu era calma, quase passiva, aceitava tudo sem argumentar. Faz tanto tempo que nem lembro. Deve ter sido antes de ter me apaixonado pela primeira vez, talvez na primeira infância. Não, talvez até segundos antes de ter nascido eu aceitasse tudo que recebia: o calor e o alimento da minha mãe. Meu primeiro choro já deve ter sido um questionamento e, numa das minhas mais antigas lembranças, acordara pensando que não pertencia a esse mundo.

E o mesmo sonho se repete dia após dia.

Esbarrei, por assim dizer, em toda a certeza de não ter certeza que eu tinha quando decidi transportar apenas meu corpo comigo. Senti o cheiro de estar aqui e só assim me dei conta de que estava.

Estou no caminho e só a completude da caminhada me trará felicidade. Quero chegar ao lugar onde o amor é maior e viver com força, quase que com desgaste – só assim sei que viverei tudo que penso em respirar.

Vim até aqui para atrapalhar meu caminho atrapalhado.

VII

Hoje acordei como num susto, com o meu segundo despertador tocando. Ao abrir os olhos, de imediato vi pela janela os prédios refletindo a luz do sol, que nascia do outro lado, as nuvens escuras ao fundo, ainda não parecia dia por completo. Mas dia era.

No almoço quebrei dois ovos, mas não sei quebrar ovos direito. Gosto quando eles se quebram exatamente no meio, formando uma linha quase reta e não craquelam, parecendo que levaram uma porrada. No entanto meus ovos quebram-se tortos, muitos parecem que tiveram uma tampa arrancada.

Por que demorei tanto? Pergunto-me quantas cascas faltam quebrar.

Enquanto fritava os ovos, perguntei-me por que nunca decidi ser quem eu sou agora. Escrevendo essa frase, acabei de sair do meu corpo e voltar, como se eu não fosse eu e me observasse por milésimos de segundo.

Esconder e me proteger não foi uma opção, era o único caminho que conhecia. Acreditava que não poderia misturar meus eus numa coisa só, porque as pessoas me compreenderiam torto como eu mal me compreendo. Mas parece que me protegendo, me protegi demais e apaguei.

A minha casca mais grossa é, sem dúvida, a casca da maturidade demais. O medo eu conheço antes de conhecer o resto e me seguro, me prendo, me escondo. Misturada com a comodidade natural, a maturidade demais é uma dessas cascas que só quebram depois de muito, muito bater – e os pedaços que voam depois da pancada podem machucar.

Quando encontrei a loucura de perto, olhei bem nos seus olhos e decidi aceitá-la.

Mas não adianta nada aceitar a loucura se você não quebrar a casca. No primeiro momento, eu peguei a loucura e a guardei no mesmo lugar onde eu estava guardada. Fiquei ali escondida, como se eu fosse uma incapaz. Deficiência de verdade é aquela que nos prende e faz ter medo. E eu sou uma grande deficiente, como se de repente entre um passo e outro houvesse um abismo.

Estou imóvel e passo os dias imóvel pela pureza do silencio. Canso-me e quero fazer barulho, ser o barulho. Quero que meu corpo inteiro vibre sem cor, só som. Quando sou barulho, não sou apenas eu, me multiplico. Aprendi a ser sozinha e a me esconder, mas agora quero ser sozinha e me mostrar.

VIII

Preciso dizer que hoje estou apaixonada. Eu, já tendo encontrado o amor, sem querer reconstruí o amor dentro de mim e continuo me apaixonando como uma adolescente. A paixão abstrata, verdadeira e imaterial, só fruição. Não quero teorizar minha fruição, quero fugir do que mata meu sentimento. Quero te mostrar apenas que sou capaz de amar, não basta? As descobertas incríveis e ideias maravilhosas deixo para os inteligentes de verdade, porque eu só sei amar.

Mas só sei amar de longe.

O amor está todo embrulhado em mim, como se na vida eu e o amor fossemos apenas espectadores e não participantes. A descoberta é tão forte que está dançando em forma de lágrimas nos meus olhos: a casca prendeu o amor. No mar de indecisões o mais óbvio foi deixado para trás, mas agora eu sei de tudo claramente.

O amor é a casca que prende e protege o próprio amor.

Fica fácil se justificar com amor. Pelo amor eu tomei determinadas decisões e tudo ficou bem. O amor e seu status quo de coisa maior e intocável deixa a vida leve e sem esforços, pronta para ser vivida. Se o amor é causa e consequência, é como se o objetivo já houvesse sido alcançado e é possível relaxar.

Acontece que, uma vez vivo, é preciso vencer-se.

IX

Mesmo antes de sair, eu já queria voltar. Nos meses que antecederam a viagem, o desespero e a dor significavam que, mesmo querendo, eu não queria. Quanto mais se aproximava, o mais importante é que houvesse um fim – e o fim era, sem dúvida alguma, voltar.

Não havia um dia em que eu não pensasse em recuperar os dias de desejos pacatos, sem compromissos com códigos, sem pensar em grandes deslocamentos do corpo, só uma vida comum igual sempre, amando e sendo amada.

São só seis meses. Fica fácil olhar de fora, olhamos os seis meses antes e depois. Encaixotados, mesurados assim, parece pouco. Mas estou dentro dos seis meses e as horas se arrastam mais do que passam, quero voltar. Olho o céu e vejo lágrimas, não há ninguém que eu ame profundamente para olhar o céu comigo. Será tão necessário assim se vencer?

Enquanto estou no quarto, sozinha e protegida, os dias são uma provação.

X

Gosto da solidão, só assim me conheço de perto. Não há vozes, barulhos e existências. Quando fecho os olhos antes de dormir, chego a pensar que sou amorfa e minha existência humana é uma ilusão. Não sou eu, afinal.

Tenho medo de me despedir.

Não me entenda mal, mas não quero amar as pessoas erradas. Não sei de meios-termos e quando amo, me apego ao extremo. Tenho medo de amar quem é efêmero por demais, por isso estar sozinho, apesar de exigir certo esforço, é a melhor saída.

O sofrimento é menor quando amamos o que não existe.

As horas se arrastam. Uma joaninha vive comigo cerca de um mês. Com certa tristeza, assumi que ela estivesse morta umas três vezes, mas ela continua viva. Eu não sabia que as joaninhas eram pretas quando jovens e aos poucos mudavam de cor até ficarem vermelhas com bolinhas pretas. Não sabia, mas a amei mesmo assim desde o começo. Eu a alimentaria se soubesse o que ela come. Velaria seu sono se soubesse quando ela dorme. Mas não sei nada da joaninha e a amo ainda mais.

XI

Quando eu consegui, por assim dizer, esvaziar a mente das coisas menores, entrei em contato comigo mesma. Foi o verdadeiro instante em que senti a concretização do meu objetivo e que, para realizá-lo, teria que abrir mão de algo.

Estou pronta para o desapego.

Viver é vencer a preguiça, mas o que é a preguiça? Talvez seja algum caminho que julgamos mais fácil. Qualquer lugar que nos deixe mais seguros, dentro da casca, sem vento no rosto ou pernas cansadas. Algum lugar onde as coisas vão mais ou menos, mas continuam indo. Foi assim que vivi cada um dos meus dias. Com muita preguiça e ansiedade.

Escrevo assim porque preciso me aconselhar.

Veja bem a ironia que sempre carreguei: a preguiça imensa fez de mim uma pessoa ansiosa. Como se numa mágica, quis que tudo acontecesse ao mesmo tempo, sem trabalho além do estritamente necessário para que eu pudesse gastar todo o tempo em nada.

Seria bom se eu não quisesse tanto. Em outras palavras, não basta ser inteligente o suficiente para pegar os atalhos, é preciso quebrar as cascas.

A cada novo dia, uma nova casca. Sem motivo aparente, uma negação. Hoje senti vontade de trancar. A vontade que tenho de me trancar, me esconder do mundo, é sempre muito grande. Mas é preciso sair sem desculpas. Não é estresse, nem cansaço, é má vontade.

XI

Estou rangendo os dentes de ansiedade. Não consigo ficar sentada ouvindo uma aula inteira, parece que o tempo não passa. Falta-me um objetivo. Não sei caminhar por trinta minutos porque julgo que já se passou tempo demais.

Não quero me esquecer disso, por isso escrevo.

Quero sair daqui, me tire daqui! Para que serve uma experiência se não há ninguém aqui comigo para dividir? Não aguento mais, alguém faça parar, quero voltar, perdi a vontade de viver e estou morrendo.

Passou. Precisei vir aqui te dizer que já passou. Você vai crescendo e se tornando cada vez mais covarde, não vê? Onde foi parar a sua força de vontade, sua grande boba!? Se quiser, continue chorando enquanto o tempo passa. Está vendo aquele dia lindo lá fora?

XII

Quebra logo a casca, sem medo. Não tente juntar os pedaços, colar as rachaduras, organizar as coisas. Entenda de uma vez, a casca já começou a se quebrar, não há como voltar atrás.

Medo é artigo de luxo quando tudo o que você tem a fazer é continuar a viver.

É preciso coisificar o amor. Ao guardar o amor dentro de mim, acabei transformando-o em coisa sem perceber. Na pior coisa possível. Na casca que protege e segura o amor dentro de mim.

Veja agora comigo: prometi a mim mesma que não teria uma família. A verdade é que a palavra família sempre me fez sofrer muito, porque todos tinham uma bela família, cheia de gente, menos eu. Em outras palavras, resolvi negar tudo o que denotasse fraqueza e submissão pelo resta da vida e assim fui capaz de esconder muito sobre mim mesma – coisas que nem eu imaginava. Desde serviços simples, como cozinhar ou lavar, até pensamentos mais complexos como independência e constituição de família. Escondi a mulher em mim a sete chaves. Neguei o feminino, me coloquei como assexuada e assim me tornei feminina demais em alguns aspectos.

E o que é uma família? Talvez eu nunca seja capaz de responder tal pergunta. O que me aconteceu quando criança não é mais o problema, mas sim a consequência de todas as minhas decisões posteriores.

XIII

Abri os olhos na frente do espelho e confessei tudo o que precisava para mim mesma. Fiquei extremamente feliz com a descoberta, é preciso se abrir. Mas digo se abrir num sentido mais amplo, não apenas escrever num papel e achar que tudo está resolvido. É preciso continuar andando e mostrar que está mais aberto. Dizer ao mundo que as coisas mudaram.

Sei no que está pensando: na casca. Estou quebrando-a e uma felicidade estranha me toma, quero chorar. De alegria e de tristeza, porque vejo o que perdi enquanto estava dentro da casca. Não há tempo para recuperar o que passou, mas posso construir o novo e é para isso que vou viver: para fora da casca.

Estou compreendendo e a compreensão enquanto o vento bate nas toalhas ao sol é de uma beleza melancólica. Da mesma maneira que se concentrar na observação do relógio e ver o tempo passar é sufocante.

Em certos silêncios, até minha mente se cala.

XIV

Meu primeiro amor com sete anos de idade, muito tempo durou. Dentro de mim era o sentimento mais lindo e cuidado de todos, só queria ser correspondido. Talvez fosse, provavelmente era. Certo dia, um amigo do meu primeiro amor trouxe um recado: um pedido de namoro vindo da minha paixonite aguda. O susto foi grande e eu só soube correr para longe, muito longe, me esconder, nunca responder o irrespondível. O sentimento era tão imaterial, tão profundo e escondido que eu não sabia lidar com tudo. Escondi-me.

Mais ou menos na mesma época, recebi uma declaração de amor. Uma cartinha para mim, qualquer garota leria e ficaria feliz, mesmo que em segredo, pelo lisonjeio tamanho. Eu nunca li a carta. Minha imediata reação foi rasgar e jogá-la na valeta, sem pensar duas vezes.

Anos mais tarde, me via apaixonada por essa mesma pessoa. Da mesma forma o sentimento nunca saiu de dentro de mim. Encontrava-o de vez em quando passando pela rua, nenhuma palavra trocada. Passou.

Mais alguns anos, ele me pediu em namoro através de uma amiga. Ia servir no exército, queria alguma boa lembrança. Neguei. Talvez ele me observasse de longe, mas eu nunca mais o vi, como poderia amar alguém que não via?

XV

Veja bem, eu aceitei a casca que me foi imposta. Escondi meus sentimentos e aceitei tratar as pessoas como meu pai me ensinou: que pessoas machucam. Então se proteja delas. Não adianta se proteger, não importa o quanto. Se a casca é grossa demais, o cruel é você.

Estou no lugar entre querer voltar para fazer tudo acontecer e querer içar para que nada aconteça.

Acho que morar em outro país é parecido com morrer, você começa a dar valor a outras coisas quando está perto do fim.

Percebi, como em um susto, que estava no caminho certo, mas o medo me fez desviar. Quando foi mesmo? Não, não foi do dia para a noite, claro que não foi. E o medo fez com que eu fechasse as portas quando pensei que as estava abrindo. Pelo que quero ser lembrada depois de morrer?

Não, ninguém quer penar na morte antes que ela chegue, mas o fato é que ela chegará. Ignorar? Seguir a vida? Precisamos de nortes, de guias, de decisões firmes, disso tenho certeza. Vamos morrer! Talvez você que me lê agora saiba que já estou morta, por isso escrevo. Não quero esquecer que vou morrer em breve.

Se vou morrer em breve, não tenho todo o tempo do mundo, então é melhor começar a fazer agora tudo o que quero fazer. Não há tempo a perder nem chances para desperdiçar. Se falhar, tente outra e outra vez. Espero que esteja me acompanhando, porque o que virá agora é tudo de mais certo que já disse.

Quando se está perto da morte, a vida fica mais fácil e objetiva. Não há muito que fazer além de aceitar a morte e viver o resto da vida. Assim podemos enxergar nossos erros, sentir arrependimento e pensar que não há mais tempo. E há tempo. É preciso aproveitar tudo o que temos, com todo o nosso corpo. Sentir em cada pedaço do eu que é isso, sou isso e aceito isso como é.

XVI

Por muitos anos, cultivei o costume de me trancar no banheiro e esperar que alguém fosse me resgatar. Na infância, eu me trancava chorando e dormia no chão. Na adolescência, além do banheiro de casa, me trancava no banheiro da escola na espera de alguém. Eu queria ser resgatada e não sabia como. Com o tempo, foi diminuindo a vontade de me esconder, mas de vez em quando acontecia. Nunca entendi por que ninguém me resgatava ou por que eu continuava a andar.

Não há mais volta, a casca já foi quebrada.

Claro, é preciso assumir algumas atitudes, não só fazer por fazer. Assumir e ter objetivos. Mas veja bem, a vida não se resume, a vida é o todo, não adiante apontar uma só coisa para explicar aquilo que não tem explicação.

Já não sei há quanto tempo assumi uma posição conformista na vida. Veja bem que, por trás de um discurso de revolução de mim mesma, eu desenvolvi a tendência de aceitar as coisas como elas vinham, sem lutar por algo diferente. Claro que isso é profundamente pessoal, mas nunca pensei que poderia mudar.

XVII

Já estou fora da casca e já senti o arrependimento. E, de fato, consegui mudar, ou ao menos dizer o que eu queria para quem eu queria.

Foi só então que percebi que o meu jeito de dizer é diferente.

Gosto de palavras, mas às vezes a palavra pela palavra é tão vazia que resulta no nada. Se você me visse agora, talvez soubesse mais do que ao me ler. Meu corpo todo feliz e com saudade, quase sem fazer movimentos. Há um caderno todo para ser escrito, mas agora quero apenas respirar o que passou.

XVIII

Estou com ansiedade, algo lindo está prestes a acontecer. Desde o instante em que me coloquei para fora, fui completa e forte, cheia de apoio. Nesse instante, sinto muito amor, e as preocupações tornam-se pequenas, um quase nada.

Tudo é de uma beleza só e eu sou parte de tudo. Desde o instante em que passei a desejar e a cuidar, a vida acontece mais fácil.

Se for preciso, vou além de mim mesma para me descobrir.

Estou apaixonada. Quero realizar muitas coisas e me livrar do estigma de ser uma só. Sou muitas e hoje me admito sem vergonha de me ser tanto assim.

XIX

É melhor mesmo que eu não saiba o dia da minha morte. Para mim é muito difícil saber que hoje talvez seja a última vez que eu verei certas pessoas. Por isso escrevo, porque não quero esquecer, esquecer é muito triste. Quero a sensação para sempre, quero explodir de lembranças.

Olho com tristeza e alegria o que está passando, não consigo controlar. Quero uma vida para construir, para que agora seja sempre agora. Não adianta guardar para amanhã o agora, porque o tempo está passando e em breve se esgotará.

Tudo é profundamente lindo e triste. Quando choro, meu peito explode dois sentimentos intensos e antagônicos que não cabem mais em mim. Nasci para o jazz, jazz é a coisa mais linda e pura que existe, quero ser engolida pelo jazz.

XX

Um ano depois, remexo cadernos, fotos, lembranças e anotações com frequência para nunca me esquecer do que aconteceu. Em seis meses eu me atravessei milhares de vezes, um coquetel maluco de sentimentos que me invadia.

Já mais calma e certa de mim, eu digo: continuo fora da casca. Agora que viver não é mais sufocante – seja pela casca ou pela distância – passo as horas plantando árvores que talvez nunca deem frutos, mas não me importo. O importante é saber para onde andar e continuar andando.

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