A escola até que era um bom ambiente para encontrar algumas espécies de colegas-pokémon, mas, em certo momento, me saturou. Eu tinha uma inexplicável sede de pessoas naquela época – queria saber como os outros faziam, como se comportavam, como era o mundo fora dos muros de casa e da escola.

De fato, nos meus primeiros 18 anos de vida, pouco conheci fora das asas paternas. Eu ia para onde ele concordava me levar, limitando bastante meu leque de liberdade.

Assim, cada nova experiência de contato com o “mundo exterior” quadriplicava de valor. Ver, com meus próprios olhos, o além-escola, era descobrir as nuances do mundo. Se me interessava, eu tinha necessidade de ir lá ver.

E é claro que, em algum ponto, eu soube que existiam convenções de animê.

Convenções de animê (que ninguém mais chama de convenção, e sim, de evento) são encontros entre fãs de desenhos e histórias em quadrinhos japoneses. Aos meus olhos adolescentes, as matérias na TV mostravam lugares mágicos onde eu poderia libertar todo o meu amor pelo Japão e ser eu mesma, por um dia.

A versão nerd de um porre.

(Ou a minha versão de porre, já que eu não bebo).

Eu queria ir. Eu precisava ir. Eu tinha que ir. VOU-MORRER-SE-NÃO-FOR-ME-LEVA!

Foram dois longos anos de espera até conseguir convencer meu pai de me levar. Se você pensar que dois anos são mais de 10% da nossa vida quando temos dezessete anos, é muito tempo mesmo.

Mas, é claro, tinha uma condição: eu poderia ficar só trinta minutos lá dentro. Meia-hora??? Não dá pra fazer nada em meia-hora!, pensei em argumentar, mas contornei minha revelia e aceitei. Antes meia-hora do que nada.

Pelo que via na TV e em conversas com meus colegas, eu sabia o que encontraria no evento: salas temáticas com exibição de desenhos e campeonatos de videogame; lojinhas vendendo mangás e produtos, nacionais e importados, com estampas de diversos desenhos; e muitas pessoas fantasiadas como os seus personagens favoritos: os cosplayers.

Chegado o momento, saí do carro a todo vapor para explorar o novo mundo.  Ignorei os colegas da escola que encontrei pelo caminho e andei por todo o evento, dei uma olhada em cada sala, num frenético sobe e desce de escadas.

(Pensando agora, metade das pessoas pelas quais passei nesse dia seriam meus colegas de clube muito em breve.)

Pela forma como essas convenções são estruturadas – salas temáticas, um espaço amplo para as lojas e um palco para as apresentações – o ideal é que aconteçam em escolas. Assim, acostumada como estava a explorar a escola onde estudava, não foi difícil adivinhar quais caminhos seguir no novo e efêmero ambiente.

As lojinhas e o palco estavam em um grande ginásio, onde devo ter um terço do meu tempo. Olhei com calma em busca de algo para comprar, uma lembrança material daquele momento – afinal, era um acontecimento de vida – e encontrei um baralho de Sakura Card Captor muito fofo para investir os R$30 que tinha na carteira.

(Em um futuro próximo, R$30 equivaleria a 10% do meu aluguel)

Era chegada a hora. Com certo pesar, mas satisfeita, voltei correndo para a carro, onde meu pai estava esperando. Bati uma, duas vezes no vidro, e nada. Ele estava com o boné no rosto, banco abaixado, talvez roncasse. Com mais força, bati uma terceira vez, até acordá-lo.

No que entro no carro, ele me indaga: ué, já voltou?

Enquanto vou embora, da janela do carro dou uma última olhada para dentro da escola com um gosto de quero mais no coração.

Em menos de seis meses, uma surpresa: um dos meus colegas estava em contado com os organizadores de outro evento e tinha acertado tudo para que fosse realizado na escola onde eu estudava. Dessa vez, tive a chance de passar três dias inteiros sendo eu japonesa.

Categories: Crônicas

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