A carreira literária é desafiadora. Você pode olhar ao redor, buscar em todos os cantinhos, mas nunca encontrará um caminho igual ao do outro para seguir. Cada caminho é diferente e quem faz esse caminho é você. Você o constrói e o trilha ao mesmo tempo. Tal fato não se limita aos escritores; ocorre com todos os artistas.

No entanto, por ser escritora profissional, só posso falar sobre a minha experiência.

O peso já começa na admissão: escritora profissional. Clarice Lispector, em sua famosa entrevista, não se considerava uma escritora profissional. “Eu faço questão de não ser profissional, para manter minha liberdade”, diz ela com sua língua presa. De certa forma, sigo os passos dela, porque faço questão de manter minha liberdade com a escrita. Escrevo sobre o que amo, acredito e que possa mudar a vida das pessoas.

Tenho essa pretensão sim, de mudar a vida das pessoas.

Não preciso mudar tudo, causar uma revolução; basta capturar um pedaço de coração, um suspiro, uma lágrima, um levante momentâneo. Tudo o que tenho é a entrega do tempo de quem me lê. Às vezes me esqueço de que todo tempo em que sou lida por alguém é um tempo precioso.

Esqueço de que já estou na sobrevida, porque todo tempo em que sou lida por alguém é um tempo de novo e que me altera sem que eu o tenha vivido.

A única resposta, aquela grande, é que não há resposta. Há o nada, o tudo e as infinitas versões do caminho.

Dentre tantas versões, escolhi escrever – e poder escolher já é uma boa notícia. Escrever, como tudo, tem suas consequências boas, ruins, medianas. Consequências que não controlo, que me encantam e me entristecem. E me fazem ter outras escolhas, um moto perpétuo.

Lançamento da HQ A Samurai Primeira Batalha Gibiteca de Curitiba Mylle Silva
Lançamento da HQ A Samurai: Primeira Batalha na Gibiteca de Curitiba (janeiro de 2017)

Até aí, toda vida é assim. A questão é, quem ensina a ser escritor? Não a arte, a técnica, mas o labor de cada dia? Quem ensina os altos e baixos financeiros, quem ensina a resiliência ante fracassos contínuos e a humildade ante um sucesso momentâneo? Quem ensina que lidar com a arte é lidar consigo mesmo, dar a cara a tapa e pôr a mão no fogo?

Ninguém. Uns aprendem na marra, outros no grito e outros fazem terapia. Contrariando estereótipos, escritores não precisam ser loucos desequilibrados nem bêbados isolados em suas torres de marfim. Escritores, como todos, precisam ter equilíbrio emocional e psicológico.

Fico sem reação quando alguém me fala “você me inspira”. Gosto da imagem, mas fico sem reação. Como posso inspirar alguém nesse estado?, me pergunto. Sorrio amarelo – se for em emoticon, melhor. Inspiro a que, exatamente?, mas tenho vergonha de perguntar (vergonha até de perguntar a mim mesma, porque talvez encontre uma resposta).

Aceito o mistério. Aceito que mesmo os dias mais negros podem ter lá o seu brilho. Posso não ver o tal brilho, mas há sempre alguém a vê-lo por mim. Um inesperado, a me puxar para a existência como um vapor.

Teço mais questões do que respostas. Enlouqueço e volto atrás para enlouquecer de novo. Me repito e desconheço. Sei menos do que gostaria e recebo mais do que esperava. Mesmo que escrever seja sina e não jogo, a sorte sempre dá um jeito de preencher as lacunas.


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