O conto abaixo foi publicado no livro A Sala de Banho (2014). Clique aqui para visitar a página da obra.


O corpo da lesma é tão lúdico que ela pode brincar de sumir quando quiser. Cabe em qualquer canto com sua pequena mala e sua transparência esverdeada. Pode, por exemplo, penetrar no vão do rejunte dos azulejos e passear pelas lacunas deixadas por trás das paredes. Ver seu corpo indo, escorregando como se engolido pela construção, causa um misto de medo e curiosidade, afinal a lesma escolheu explorar um nada que ninguém pode alcançar.

A lesma é incansável. Arrasta-se lentamente em direção à luz enquanto deixa os rastros marcados no caminho. Sua força delicada é linda, bem como seu corpo, que se estica e se contrai facilmente. Parece que ela nunca se cansa de explorar o chão e as paredes – sobe sem ter medo de cair, mas se contrai ante o menor movimento externo. Assopre-a e logo ela voltará pelo caminho que veio numa humildade impossível de ser observada em outro animal.

Ao pegar a lesma na mão, é possível notar a consistência inconsistente do seu corpo. Ela existe, apesar de parecer mentira, afinal, não há nada que a proteja e mesmo assim continua viva. É politicamente mole, nem de mais, nem de menos. É linda de noite enquanto dorme: coloca-se em forma de meia-lua, encolhida, antenas e olhos escondidos, descansa despreocupada. A lesma faz-se num todo singelo, como se um amor de mãe a protegesse.

A lesma jovem é de um transparente esbranquiçado como o ranho. Quando se cruza e a cabeça encontra o rabo, transforma-se em um pequeno infinito. Sem início nem fim, ela brilha ante a menor luz, sempre em um perfeito por inteiro. Se imóvel na parede por muito tempo, começa a escorregar lentamente, até decidir mover seu corpo de paciência materializada, vazio de preocupações, preenchido apenas pelo instinto de arrastar-se para a luz.

No sal, a lesma no sal tem a consistência do gozo do homem; ambos representantes claros de uma quase vida que não foi. Antes tivesse a lesma chegado à alface como o sêmen, que encaminha o espermatozoide ao óvulo; assim seria vida. Mas o menino matou a lesma, uma criatura que não tem culpa de ser tão poesia. Além disso, é limpa, apesar de deixar as marcas do seu rastejar pelo chão. É linda e completa na essência de si mesma.

Ver a lesma envelhecer não deve ser algo comum. Aos poucos seu corpo ganha uma cor esverdeada, que, com o tempo, transforma-se em marrom, e só então a proteção em suas costas cresce. Nesse ponto de sua vida, ela já sabe se proteger muito bem e torna-se mais desconfiada. No entanto, apesar da mudança de cor, sua parte de baixo preserva o branco da juventude, todo ele nostálgico. Com as costas no chão, a lesma é o ser mais indefeso do mundo – é a própria inocência materializada.

Arrasta-se como se fosse tudo, com a beleza das curvas que faz, incrivelmente veloz para uma lesma, mas, ao mesmo tempo, parece nada, como se fosse sumir a qualquer instante. Enche-se e esvazia-se de si com facilidade, arranja-se facilmente em qualquer canto. A lesma, feita assim de si mesma, é amor puro e leve. Causa amor, é inocente. Ao contrário da barata, ela transborda tranquilidade para quem a observa.

A lesma, assim como uma bexiga cheia d’água, estoura com o mínimo esforço. Sua fina membrana se rompe e tudo que a faz lesma começa a escorrer em uma lenta e dolorosa angústia que antecede sua morte. Uma gosma transparente sai de si por todos os lados enquanto ela tenta arduamente subir na parede. Aos poucos vai perdendo a cor escura, tornando-se pálida e mórbida. Está morrendo. E o que pensa a lesma? Mesmo sem conseguir mexer metade do corpo, ela continua a andar. Entre dor e teimosia, escorrega para o chão graciosamente, entrega-se uma primeira vez. Antes de morta, tenta subir novamente, nunca desiste de seguir seu caminho e continua vertendo tudo o que a fazia lesma. Tomba a cabeça e contorce o corpo – ela quer mesmo continuar viva… viva… viva… viva… Morre limpa e pura como nasceu. Eu queria ser a lesma. Eu matei a lesma que queria ser. Eu nunca deixarei morrer a lesma. Mas quem sou eu afinal? Uma assassina diária de mim mesma num demasiado eu sem querer. Minha gosma transparente se esvaiu, estou seca, mas mesmo assim quero viver. Eu que matei eu mesma, a lesma. Já caí de todas as paredes que tentei escalar, contorço-me e no fundo estou no fim do caminho. Sou uma lesma vazia de gosma. Eu matei a lesma sendo eu mesma, e no ar o cheiro de morto, e no chão o corpo torto. Sei que nunca deixarei a lesma morrer, ela em mim está singela, no lugar da gosma que acabei de perder. A lesma, que sou eu, morta, está em todo o amor do meu mundo, nas lágrimas que não sei chorar por tê-la matado. Já eu, que sou a lesma, não tenho pernas nem braços e me arrasto entre os azulejos por um pouco de comida.

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