Olhos vidrados na tela. É bem provável que eu tivesse acabado de fazer dez anos quando as vi pela primeira vez, nas férias de julho. Lembro-me de ver uma delas, em uma espécie de vala, fraca e sangrando, mas sem desistir da luta. Suas amigas eram mantidas reféns pelo vilão da vez (que logo se revelaria como uma pessoa boa), um enviado de Zagar. Depois de alguma tensão, tudo acaba bem.

Na década de 1990, as manhãs na TV aberta eram repletas de desenhos. Sozinha ou na companhia da minha mãe, eu vi vários – em especial, os do SBT. Tudo começava com o programa da Vovó Mafalda, por volta das sete da manhã, seguido pelo Bom Dia & Cia, comandando pela apresentadora Eliana. Ela já entrava dançando e cantando, acompanhada por pessoas vestidas como animais domésticos enormes andando em duas patas, também dançando ao som de “palma, pata, pé, pé, pé”.

Era o meu ritual matinal da época: às oito horas, dancinha; às oito e cinco, minhas heroínas. Naquela época eu não imaginava o quanto um mero desenho moldaria o resto da minha vida.

Eu já tinha uma predileção à personagens femininas fortes, então ver Guerreiras Mágicas de Rayearth era como encontrar um oásis de representação. A histórias das três adolescentes que são chamadas pela Princesa Esmeralda para se tornarem Guerreiras Mágicas e salvar o mundo de Zephir atraiu-me com força transformadora.

Eu queria ser aquilo. Viver aquilo. E, de fato, no futuro, viveria.

Findas as férias de julho, seguia assistindo aos episódios – são 49, no total – como dava. Já sabia programar o videocassete para fazer gravações e, depois de algumas tentativas insólitas, passei a assisti-las à tarde, entre brincadeiras e lições de casa.

(Ainda guardo tanto as fitas gravadas quanto o videocassete, caso bata uma saudade.)

Aos poucos, meio que por acidente, como as coisas que se descobriam sem internet naquela época, descobri que aquele era um desenho japonês. Não tenho lembranças claras de como isso se deu, eu apenas soube e aceitei.

No primeiro episódio – que, naturalmente, não foi o primeiro que vi –, as protagonistas Lucy Anne e Marine, ainda meras desconhecidas, estão visitando a Torre de Tóquio com suas respectivas escolas e, de lá recebem, o chamado ao Mundo Especial.

Tal como elas, também recebi um chamado que modificou minha vida e definiu minha personalidade: daquele dia em diante, me tornei um pouco japonesa.

O amor e a curiosidade que um mero desenho despertou em mim segue na vida como um mistério. Apesar do ponto de partida ter sido um desenho, o movimento em busca de uma resposta mais plausível foi bem maior que isso.

Os dezesseis anos seguintes seriam de imersão na cultura japonesa. Se por vezes me arrependo de ter ido com tanta sede ao pote mesmo já ciente da minha outra busca – a literária – penso que eu não seria eu se não tivesse encontrado o Japão como encontrei.

Favorecida pela difusão da cultura japonesa no início dos anos 2000, pelo início da internet para fazer pesquisas e por uma boa dose de sorte, conheci um Japão escondido e pulsante em minha própria cidade. Um Japão de costumes mantidos no passar das gerações dos descendentes misturado com o contemporâneo, descoberto e explorado por outros admiradores da cultura.

Um Japão no sul do Brasil, em Curitiba, uma espécie de segunda casa psicológica na qual me refugiei quando os problemas eram pesados demais. Um Japão que me mostrou valores importantes na prática, como a gentileza, o esforço, o espírito de equipe, a divisão de tarefas. Um Japão que muito me ajudou – e ainda ajuda – na caminhada em busca dos sonhos.

Assim como as Guerreiras Mágicas foram convocadas para salvar o reino de Zephir e, no final, tiveram que salvar a si mesmas, o meu chamado ao Mundo Especial me tornou mais forte e preparada para enfrentar os desafios da vida. Sem todas as pessoas que encontrei e o que aprendi com elas, a realidade teria um peso insuportável.

O Japão do outro lado que descobri ao longo do tempo ainda se reflete em cada uma das minhas ações. Talvez não de forma clara e direta, mas nos detalhes, preferências e objetos que me rodeiam. E é esse Japão, escondido nas entrelinhas, que eu quero fazer transcender.

Categories: Crônicas

Deixe uma resposta