O conto abaixo foi publicado no livro A Sala de Banho (2014). Clique aqui para visitar a página da obra.


Agonizando de pernas pra cima, tão magras e finas suas seis patas. A barata é muito feia, tão feia que não tenho coragem de matá-la, fico entre o encanto e o horror de vê-la agonizar.

Toda marrom, aquelas perninhas tremendo convulsivas e depois parando, morre aos poucos, tão total e entregue ao fato de morrer. Seu corpo, sua casca no chão frio – e o que é frio para a barata?

Sumir a vida, tudo que move. Será melhor morrer rápido ou devagar? Morrer devagar para poder contar como é morrer. De vagar.

Sinto vontade de enterrar o corpo daquela barata que agoniza no banheiro. Descobri que a amo tanto que sou incapaz de dar uma chinelada nela, quero-a morrendo aos poucos. Prolongar o sofrimento ao invés de matar numa grande dor.

A barata fica mais bela quando sofre. Vejo-a estremecer e enterneço-me cada vez mais. Eu a amo profundamente agora. Tenho nojo e a amo. Um amor sujo, eu sei, porém confesso.

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