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uma e outra

Escrito por

Mylle Pampuch

Busco uma versão de mim, uma que conviva com a alma em que habito. Uma que não se desfaça a cada percalço ou desdito, uma que saiba se elevar por entre os espinhos, uma. Que fosse uma, pequenina, para me segurar nas desmedidas, uma. Singular e sulfurante, magnífica em suas rusgas, habilidosa em seus átrios, contida em seus arfares de peito, uma. Uma rugosa o bastante para me conduzir em suas narinas e me lançar no ar poluído sem casca de ferida, uma. Uma que não tenho, porque sou pálida quando o assunto é enfrentar o desconhecido.

Visto então outra, a versão-membrana feita do amor do mundo, vulnerável e visceral, a outra. Outra que carrega consigo a fome e a saciedade, a febre e a taquicardia, essa outra. Outra que demora a entregar o peito e, quando entrega, sabe que será dilacerada pelo acaso, outra. Uma outra que não cai nas artimanhas da memória, onde todo e qualquer passado é melhor do que agora, a outra. Outra que conclui-se no silêncio, que vê quando vai perder e tenta se proteger quando é tarde demais, tal qual outra. Essa outra é o agora.

Encontrar uma ao invés da outra é a magia dentro da magia, como o herói da jornada. Um mundo dentro de outro e outro ainda nas camadas de cebola que defloro sem choro contido. A sós sem siso, desencontro é mais um porto-seguro que se esvai — mesmo sem saber desde quando era porto e porque era seguro. Há aqui um peito que não sabe o não-amar.

Tudo porque a outra sabe que falar literatura é entregar um pedaço da intimidade.

190.830

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