No final início dos anos 2000, os mangás, histórias em quadrinhos japonesas, chegaram ao Brasil e formaram uma geração de leitores do gênero. Acompanhados pelos animês, os desenhos japoneses, transmitidos em canais tanto abertos quanto por assinatura, a cultura japonesa encantou milhares de crianças e adolescentes que hoje estão na faixa dos trinta anos.

E eu sou uma delas.

Depois de afirmar meu amor pelo Japão, o próximo passo era encontrar mais e mais pessoas com quem dividi-lo.

No último ano de escola, a minha bolha de relacionamentos começou a se abrir: os organizadores do evento que acontecera na minha escola faziam parte de um grupo de fãs de animê e mangá que se reunia todos os sábados em um porão.

Vencida a resistência paterna – que hoje eu entendo, afinal, quem se reúne em um porão? – comecei a frequentar o grupo Danketsushou (団結しょう, vamos nos unir), o último foco de resistência nos tempos em que a internet era discada e as pessoas precisavam se encontrar fisicamente para partilhar seus gostos.

A proposta era promissora: promover atividades variadas e eventos sazonais com o intuito de cultivar e divulgar a cultura pop japonesa. Porém, na prática, a maioria dos encontros não passava de um monte de gente conversando sobre suas histórias favoritas (o que não era tão ruim assim).

Fiz muitos amigos lá, que me acompanharam e ajudaram em momentos decisivos da vida, alguns com quem tenho contato até hoje. Lá vivi experiências como passar horas falando sobre o que acontecia nas histórias que víamos e líamos, ver animês em grupo, trocar e indicar as músicas de jpop e, principalmente, descobrir que existiam pessoas que tinham outros gostos como os meus, tipo curtir Los Hermanos.

Os membros sênior – e, acredite, tinha alguns bem sênior para o que se espera de um grupo assim – mantinham uma videoteca, com fitas de vídeo; e uma mangateca, com mangás nacionais e importados. Era possível fazer empréstimos com a promessa (quase nunca cumprida) de devolução no sábado seguinte.

A proposta era boa, mas dava pra ver que os anos dourados da Danke (apelido carinhoso do grupo) haviam passado. Os membros sênior já não eram adolescentes com tempo livre e o número crescente dos membros não parecia ajudar. Antes fosse um grupo fechado, senão secreto, e teria sobrevivido aos dias de hoje, com encontros mensais em algum restaurante japonês e calorosas discussões sobre o viés político de Evangelion no zap zap.

Mas voltemos ao porão.

Não por acaso, o espaço era mantido (e ainda o é) pelo Nikkei Curitiba, uma um clube que começou como ponto de encontro para os imigrantes e descendentes japoneses, e com o tempo, tornou-se um difusor cultural. O tal porão fica no prédio do Cenibrac, a casa do estudante japonês em Curitiba, e ao lado da escola de japonês Bunkyo.

Só aí a ligação estaria feita.

Houve, no entanto, um detalhe decisivo que me apresentou à comunidade japonesa da cidade: a Danke era um departamento do Nikkei Curitiba – e todos os departamentos do clube trabalham na organização dos grandes festivais.

Assim, eu conheci tanto os matsuri (festivais japoneses) quanto o Clube Nikkei não como visitante, mas como parte atuante. Eu já tinha um histórico de pró-atividade e encanto pelos bastidores, por trabalhar fazendo os jornais internos da escola onde estudava e da escola onde fazia inglês, foi fácil ingressar na realização dos eventos.

É claro que em toda história há obstáculos – até porque, sem desafio não há narrativa. Como era de se esperar, eu não era a única pessoa interessada em participar da organização dos eventos: em pouco tempo eu ganharia uma inimiga. Mas essa é uma história que precisa ser contada aos poucos, capítulo a capítulo, para que nenhum detalhe se perca. Antes eu ainda daria o meu primeiro beijo.

Categories: Crônicas

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