O conto abaixo foi publicado no livro A Sala de Banho (2014). Clique aqui para visitar a página da obra.


Estava completamente lúcida naquela noite e achava graça da sensação que eu tinha de talvez nunca mais voltar àquele lugar. Olhei com atenção a disposição dos móveis, senti bem os cheiros da casa e então nos despedimos. Não comentei sobre minhas últimas impressões, afinal minhas palavras soariam insensatas num momento como aquele.

Fazia um pouco de frio e era certo que choveria. Não choveu. Pude me concentrar ainda mais em minhas conclusões precipitadas daquela noite. Ao parar no sinaleiro, um perfume molhado de jasmim invadiu meu olfato, fazendo-me ainda mais frágil. Chegaria em casa tão pouco eu que nem mesmo um banho me recuperaria.

Ver pela última vez. A ideia dançava na minha cabeça, cheia de cores e possibilidades. Era sim de uma beleza única, inexistente aos que não sabem o essencial. Eu, que já estou aqui há tanto tempo, sei reconhecer bem todas essas pequenas peças que o destino teima em me pregar.

Mesmo assim, algo me dizia que eu não poderia mais fingir que fugia de certas coisas. Em algum momento, sabia que as obrigações falariam mais forte do que esta ilusória liberdade. Assim parti em busca de uma saída, uma solução que me satisfizesse por completo, mesmo que com isso eu ficasse parcialmente insatisfeita. Procurei encarar a situação como um belo desafio e entrei em casa.

Levei a mão ao interruptor, mas logo desisti de acender a luz, seria melhor assim. Percebi que sem querer andava silenciosamente e continuei até o quarto. Mal caí na cama e dormi profundamente. Lembro-me de que sonhei com os últimos lugares que havia visto ainda desperta – e entre sustos acordei várias vezes achando que estava lá.

Naquela época, eu morava sozinha e trabalhava como autônoma. Me virava bem, tinha o suficiente por ser só para mim. Até aí tudo parecia acertado dentro da minha cabeça, exceto por um detalhe: eu nunca soube ser totalmente livre.

Há algo sufocante na liberdade. Algo que nos impele a criar raízes em algum lugar ou em alguém. A possibilidade de poder decidir a todo instante qual será o próximo passo, a próxima decisão acerca de sua própria vida. A liberdade nos condiciona ao pensamento constante, a nos debatermos com dúvidas mesmo antes de despertar. A dor de nunca se desligar.

Meu sono ia até o horário que eu bem quisesse. Fechava os olhos e sonhava sempre que podia, só naquela noite estava diferente. Desisti de dormir, enfim, às cinco e meia da madrugada. Por mais que meu sono fosse profundo, meus pensamentos me atormentavam. A decisão que eu deveria tomar começou, sem que eu soubesse, a ganhar forma naquela noite. Se naquele instante eu tivesse a visão dos fatos que tenho agora, talvez meu sono fosse mais tranquilo.

Saí de casa cedo, tão cedo que até levei um choque. O ar friozinho misturado com a difusa luz da manhã me emocionaram. A minha respiração estava mais gelada que o normal e poucas nuvens passeavam pelo céu naquela manhã de primavera. Adorava tal tipo de caminhada, mas evitava fazê-la como que para manter o encanto. Minha memória nunca foi boa, então apagava sempre as sensações boas para só resgatá-las quando estivessem diante de mim.

Olhei para o relógio, imaginei que ele devia ter acabado de acordar e em pouco tempo começaria a trabalhar. Nas primeiras horas do dia, ficava em casa mesmo, para só depois do almoço ir ao escritório, onde ficava até às oito da noite, mais ou menos. Além dele, outros três colegas trabalhavam lá, todos contadores que passavam os dias recebendo e organizando as finanças dos clientes.

Imaginei-o em frente ao computador segurando uma caneca de café fumegante. Provavelmente deveria pensar nos afazeres do dia e conferir os últimos e-mails. Sabia que ele gostava de ler algumas notícias do dia em portais variados. Cerca de uma hora depois, ele se levantou e foi até a cozinha para ver o que precisava comprar para o almoço. Pegou a carteira e caminhou em direção à porta.

Sempre que tinha um tempo livre, gastava-o imaginando o que ele estaria fazendo naquele momento. Como conhecia bem sua casa e sua rotina, meus devaneios eram ricos em detalhes. Naturalmente eu sabia que tudo não passava de uma grande mentira, mas algumas vezes me perdia o suficiente para encarar minhas suposições como efêmeras verdades.

Hoje sei que só produzia essas imaginações para calar a grande pergunta que eu teimava em me fazer: será que ele se lembra de mim durante o seu dia? Nunca me atrevia a imaginá-lo pensando em mim como se isso fosse atrapalhar a naturalidade que tal pensamento devia ter.

Ao entrar em casa, já havia esquecido sobre o que exatamente pensara, só sabia que o havia feito. Minha grande arma na época era poder esquecê-lo ou lembrá-lo somente quando eu quisesse. Só por isso conseguia manter minha rotina tranquilamente.

– Você deveria morar sozinha.

– Falando assim parece até um conselho cruel.

– Sabe que não quis ser cruel, apenas acho que um pouco de solidão seria bom, você pensaria melhor em algumas coisas.

– Nunca tive problemas em ficar sozinha.

– Claro! Você nunca ficou sozinha de fato. A ideia de que não há mais ninguém na mesma casa que você pode assustar no início. Não há outro calor nem outra voz e tudo depende só de você para funcionar ali.

– Mas o bom é ser livre assim.

– Acha mesmo?

Era cedo e eu não sabia ao certo o que fazer. Fui até a cozinha, onde tudo era branco, e coloquei uma chaleira de água para esquentar. Aos poucos o silêncio foi rasgado pelo ebulir da água e foi então que notei que não estava sozinha. A chaleira possuía, naquele instante, uma outra voz e um outro calor que não os meus. E essa comparação infantil me fez pensar sobre minha própria solidão.

Solidão é uma palavra forte e normalmente as pessoas evitam usá-la. Como sempre fui indiferente a ela, queria a sensação de estar completamente só. E foi naquela cozinha branca, naquela manhã de embriaguez, que eu fugi de mim mesma.

Já não me tinha por completo e constatar tal fato foi meu atestado de infelicidade. Não ser eu mesmo por completo implicava em precisar de outra pessoa para me completar e isso me pareceu assustador. Cabe aqui comentar que existe uma diferença enorme entre amar e necessitar do outro. O amor, quando sozinho, não causa mal e pode existir ao lado de tudo mais em uma vida. O que atormenta os seres humanos é a necessidade de ter o outro por perto se importando com você – a vontade recíproca de ser amado. Eu gostava de amar tranquilamente, sem pensar ou sonhar com possibilidades diversas que me ligassem a ele. Tinha meu amor como um devaneio das horas vagas, como quem olha o outro de longe e admira. Mas meu mundo começou a mudar quando a chaleira apitou insistente, como se gritasse para mim que havia possibilidades além da qual eu escolhera.

– Acho! Ser livre, viver da maneira que eu bem entender.

– E qual será a primeira coisa que fará com sua liberdade?

– Não pensei direito nisso ainda. Talvez eu acorde tarde todos os dias.

– E depois?

– Trabalhe no horário que eu quiser.

– E, se sentir sono, dormirá?

– Talvez. Vai depender do dia.

– E depois?

Naquela hora achei irritante a insistência dele, mas agora entendo que na verdade eu não sabia ao certo o que responder. Ser livre é uma tarefa difícil e de constante aprendizado. Para ajudar, a pessoa a quem dedicava o amor era meu inquisidor.

A liberdade nos obriga a solidão. Coisas que só dependem de você para acontecer, a concentração, a reclusa. Tudo fica bem enquanto somos completos e independentes, quando nos preenchemos por nós mesmos. E eu estava cheia de amor e vivia feliz com isso. Senti uma leve nostalgia ao me lembrar dos bons tempos, que acabaram de se esvair de mim como num piscar de olhos. E finalmente me senti solitária.

Nos dias que se seguiram, não deixei que a chaleira apitasse. A mera lembrança do sentimento era vergonhosa para mim, então preferi omitir um pouco mais a realidade. No entanto, os dias passavam lentamente e sem vontade como que me condenando pelo crime da descoberta. Enquanto o tempo passava, ele não dava notícias, o que me fez pensar que ele talvez não existisse. A existência está tão atrelada ao saber que as pessoas só existem quando delas sabemos. À medida que as horas se esvaiam, eu ia me esquecendo cada vez mais dele, uma miragem de um passado inventado.

Em questão de segundos, tudo ficou claro novamente. Passei por um lugar e, sem querer, tive a esperança de encontrá-lo. Entrei e procurei-o, mas ele não estava lá. Uma grande tristeza me invadiu e fui obrigada a admitir que ele ainda existia. Reconheci minha maldição: apesar de o amor não me incomodar muito, ele me incomodava profundamente. E apesar de a sensação passar tão rápido quanto vinha, deixava resquícios de algo que é impossível de nomear, mas fácil de entender: a vontade de fazer nada.

Comecei a desejar que ele realmente sumisse e me esforcei ao máximo para não pensar mais no assunto. Os dias passavam e minha nova resolução tornava-se cada vez mais real. Apesar de ainda amargar um pouco a solidão – afinal, uma vez descoberta – a minha vida estava em paz como se nada me pudesse atingir. Todos os dias, eu tinha a certeza de que não amava e isso me fazia tranquila.

Não sei ao certo quanto tempo se passou, mas acredito que fiquei mais de um mês sem vê-lo. O amor já era um quase nada frágil, que aos poucos parecia se despedaçar, e eu pouco me importava. Foi nesse período que consegui me lembrar um pouco de quem eu era antes de amar. Claro que é sempre muito difícil se separar assim, já que amar é um processo lento, sem um antes e um depois definidos. De qualquer maneira, eu consegui.

Eu era um medo. A cada passo, tinha a nítida impressão de que iria cair por terra, então preferia não arriscar grandes passadas. Mesmo assim, eu sonhava e tinha dois olhos para ver o mundo. Logo na primeira vez que o vi, notei algo diferente vindo dele, a indefinível impressão de que não seria tão simples viver a partir de então. E foi por entre conversas e coincidências que aconteceu: eu comecei a me questionar.

Questionar-se exige uma energia que eu chamo de frágil, mas por outro lado é viciante. Quando percebi, pegava-me exigindo mais e mais de mim mesma a todo tempo. Não fazia nada, não era capaz de levantar um braço, apenas pensava e desejava que nos encontrássemos de novo para beber mais da minha fonte de inspiração.

Aconteceu que em algum momento, eu decidi me mexer. Foi com prazer que senti novamente o sangue circulando animadamente em minhas veias. Percebi que era chegada a hora de deixar a casa dos meus pais e tentar algo novo, algo fora de mim mesma naquele momento, mas que logo seria um dentro assim que eu me acostumasse.

Trabalhava para mim e continuava a aprender o eu numa nova vida quando notei o amor. O instante pleno e farto no qual se nota que o sentimento existe pode ser comparado a um silêncio falante e irreversível que vai mexendo com você até ser impossível não falar qualquer besteira que seja. Nada restou além de eu abraçar o amor e dizer “se ele existe, eu existirei dentro dele”.

Ao amor existem duas opções: vivê-lo ou fingir ignorá-lo. Como já disse, optei por vivê-lo, mesmo achando que o terreno era meio perigoso – e qual terreno não é perigoso? O sentimento era, naquele momento, um complemento de mim, algo que não faria falta extrema caso fosse tirado de mim. Acredito que o amor é mais belo nesse estado de contemplação primeira, de identificação, a aceitação como o abstrato que existe. Foi assim que me vi buscando o inatingível; trabalhava dia e noite em busca de algo que eu não sabia definir, apenas justificar: ando porque amo.

Aqui vale lembrar que o amor se desmembra da pessoa amada, como se em mim houvesse dois seres independentes. Apenas quando o via, era capaz de unir o sentimento com a pessoa, provocando em mim a certeza momentânea de que o que acontecia dentro de mim era real.

O problema começou quando a necessidade de ter o outro por perto era tão grande que o simples estado de graça de amar não me bastava. Quando dei por mim, os dias todos estavam sem cor e um desânimo latente tomava conta dos meus dias. Apesar disso, a vida me chamava e eu tinha que atender, tinha que viver, fosse como fosse. Preciso reconhecer aqui que eu não tinha mais paz, como se eu não fosse autossuficiente.

Amar, a princípio, é um fruto da não convivência, da pura imaginação. Amamos o conhecido que ainda é cheio de mistérios, de quem sabemos pouco e buscamos mais. O amor da convivência – quando possível – só vem depois e precisa ser bem melhor construído. Eu vivia de imaginar e o que via, interpretava de um jeito todo meu, nem mentiras nem verdades, era apenas próprio. E foi com tais impressões confusas, aliás, vividas durante alguns meses, que tivemos nossa última conversa.

No fundo eu sabia que seria nossa última grande conversa sobre o nada. Do conteúdo não me lembro bem, só guardei mesmo a doce sensação de ser lembrada. Num comentário qualquer, percebi que ele se lembrava de algo que eu lhe dissera quando nos conhecemos. Foi a partir dessa simplicidade que criei forças para admitir que eu precisava acabar com o que acontecia dentro de mim e escolhi a maneira mais drástica, independente das consequências: a confissão.

Foi com essa decisão que me preparei para o fim. Sei bem que o fim é necessário para a vida, então aceitei humildemente aqueles que seriam os últimos momentos do amor. Provavelmente, depois de revelado, meu sentimento se desmancharia aos poucos como uma pipa que pega chuva e nunca mais volta a voar.

Eis o meu eu agora. Se me olhar bem, saberá que me preparo para o pior – que nesse caso não é o amor rejeitado, mas sim o sentimento que se encerrará em si próprio depois de um tempo. Um amor que sobreviverá dele mesmo até devorar-se por completo, autofagicamente. Mas o que acontece é que continuo aqui, delineando as primeiras palavras que lhe direi e que matarão o você que construí em mim.

Não me importa, estou buscando por isso há muito tempo. Prometo desconstruir tudo o que é de mais precioso a partir de agora. Ou melhor, a partir de daqui a pouco. Ainda me resta algum tempo para usufruir a beleza que o amor me causa. Um amor por si só, como se um ser morasse no meu coração – tão independente e bondoso que poderia ficar para sempre.

O fim é triste. Preciso me livrar de você agora, me perdoe. Eu até ficaria com você para sempre se não exigisse tanto de mim. Tenho muito que fazer e está tudo acertado já, por favor, não insista. Juro que não queria te fazer esse mal, mas foi inevitável. Nunca quis te causar preocupações, nem constrangimentos, a verdade é que sou muito egoísta. Levanto-me e apronto o que quero falar. Se algum dia eu precisasse definir vertigem, eu diria o seguinte:

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